TrabalhosGratuitos.com - Trabalhos, Monografias, Artigos, Exames, Resumos de livros, Dissertações
Pesquisar

Nada A Ver

Por:   •  15/4/2013  •  2.152 Palavras (9 Páginas)  •  388 Visualizações

Página 1 de 9

Enquanto em CAMPOS o conceito se “restringe” a ser uma tradução, se preocupando “eminentemente com a reconstituição da informação estética do original” para servir de “leitura desse original”, e ainda por cima buscando uma isomorfia com o “original”, a nossa questão é mais ampla, exigindo não só um conceito específico para a possível tradução que teremos que fazer entre a fala e o processo geral de textualização, mas uma visão geral das ficcionalidades enquanto memória, fala, transcrição, textualização e interpretação.

Ao mesmo tempo, toca de leve na questão de considerar o texto final o nosso referente ao ambicionar que o texto afirme-se “como um original autônomo” (precisamos fugir das idéias de reflexo em seus mais ardilosos artifícios), além do que, flexibiliza todo o trajeto de criação textual, desrespeitando ao respeitar, modificando ao compreender, criando ao entender a criação, fugindo ao texto como ícone, ao autor como ídolo e ao texto como referencia, que não é nada mais que o conceito de objeto em ação.

Um dos primeiros textos que conhecemos onde há interferência na fala do colaborador é a introdução de Cláudio Lacerda PAIVA (1978) no “Depoimento” de Carlos Lacerda, dentro, ainda, de um “depoimento jornalístico”. Suas idéias se organizam e se constituem como procedimentos preciosos, ainda hoje úteis para nosso trabalho:

a) é preciso deixar o “depoente” falar livremente da vida e da sua vida, contar o que fez, o que deixou de fazer e deixar que ele dê sua interpretação de tudo;

b) manter um tom coloquial, deixando a impressão de estar ouvindo o depoente, criando uma pontuação que mantenha a exata entonação da conversa;

c) deixar, no resultado final, o constante vaivém cronológico;

d) suprimir as perguntas para proporcionar ao leitor um texto corrido e fácil de ser lido;

e) juntar os assuntos que se separem no vaivém das perguntas e das respostas (1978: 19-24).

Esses “procedimentos” se aproximam daqueles utilizados por alguns oralistas (VIEZZER, 1984; BURGOS, 1987; MEIHY, 1990/1991). O processo inteiro é de diálogo e de transcriação, sem usar esses termos. Sua perspectiva é jornalística. Mas o resultado final garante a individualidade da voz, o poder de recriar uma vida, o sentido ficcional tanto do texto que lemos quanto da vida, matéria desse texto. A idéia de “suprimir as perguntas para proporcionar ao leitor um texto corrido e fácil de ser lido” é a que vai ser o centro da criação textual e a que permitirá maior compreensão não somente do texto e da leitura, mas, fundamentalmente, daquelas dimensões interiores que é preciso conhecer e criar de maneira a se respeitar aquele que fala e o vivido na sua dimensão de sujeito, ou melhor, na tradicional dimensão de “sujeito da história”.

Para Moema VIEZZER (1984), comentando seu trabalho com o depoimento de Domitila Barrios de Chungara, trabalho com gravações que vai de 1975 a 1977,

O que apresento aqui não é um monólogo de Domitila consigo mesma. É o resultado de numerosas entrevistas que tive com ela no México e na Bolívia, de suas intervenções na tribuna assim como exposições, palestras e diálogos que desenvolveu com grupos operários, estudantes e empregados universitários, habitantes de bairros populares, exilados latino-americanos (...) todo esse material gravado como também alguma correspondência escrita foram ordenados e posteriormente revisados com Domitila, dando origem ao presente depoimento. (1984: 7-8)

Aqui se vislumbra nitidamente um trabalho de transcriação, de tornar uma malha de perguntas e respostas num texto, numa malha ficcional, se bem que essa instância ficcional escape completamente aos interesses reais, políticos e teóricos tanto de VIEZZER quanto de Domitila. No entanto há uma força de modificação atuando e reordenando, permitindo, cortando, remontando, assumindo e deixando; e o resultado faz aparecer seu cuidado e seu medo ao dizer que “o que apresento aqui não é um monólogo”, nos garantindo que o monólogo é aparente.

“Propositadamente, mantive esta linguagem que forma parte intrínseca de seu depoimento” (1984: 8). O resultado é a saída visível do entrevistador, deixando falar e viver o outro.

Aqui aparece também um procedimento que somente com MEIHY tomará corpo metodológico. A figura daquilo que ele

...

Baixar como (para membros premium)  txt (12.8 Kb)  
Continuar por mais 8 páginas »
Disponível apenas no TrabalhosGratuitos.com