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Processos Educativos

Por:   •  18/4/2013  •  1.211 Palavras (5 Páginas)  •  644 Visualizações

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Com o fim do domínio dórico, nós vemos a reconstrução da sociedade grega. Há um renascimento do comércio em torno do século VIII a.C. e a tendência à formação de centros maiores ao redor da ágora, - a praça pública - local das transações comerciais e das discussões sobre a vida da cidade. É o nascimento da política. Esclarece-nos Paim, Prota & Rodriguez (1999):

Vencendo o princípio de que todos são iguais diante da lei, a discussão torna-se a forma normal de tratar-se não só a política mas os acontecimentos em geral; prevalece a opinião de quem expõe suas idéias corretamente e com argumentos válidos, quer dizer há a supremacia do logos (que significa "palavra", "razão"). Assim que, enquanto antes os fenômenos divinos, naturais e humanos confundiam-se e eram vivenciados sem necessidades de explicação, com a pólis, esses fenômenos tornam-se problemas, à procura de explicação (PAIM, PROTA e RODRIGUEZ, 1999, p. 47).

Na estruturação política, cada comunidade grega era uma cidade-Estado – as chamadas polis -, autônoma, com a dimensão de pequeno município. Na Pólis é que se efetua a conquista política do estatuto cívico, da ordem da cidadania, na qual o destino de cada um é definido não pela obrigação de lealdade à um chefe, mas pela relação ao princípio abstrato que é a lei - primeira etapa. Num segundo momento. A democracia se instaura em Atenas. Apresenta-se a idéia de governo do povo ou, governo no "meio" do povo e não governo do "povinho". O grego tem consciência de sua cidadania porque participa da vida pública da cidade. Os destinos da pólis são de responsabilidade comum de todos os cidadãos, acima dos quais nada a não ser as leis que eles mesmos elaboraram. Escreve HOWART (1984):

Pode parecer exagero, porém acredito que seja justo afirmar que as realizações políticas e as experiências práticas de governo dos gregos, nas quais se basearam todas as formas modernas de política da Europa ocidental, pelo menos até a aparição do marxismo, não poderiam ter acontecido em outro ambiente que não fosse o da pólis. Conceitos tão familiares como, por exemplo, governo constitucional, império da lei, democracia e, acima de tudo, cidadania, eram completamente desconhecidos até que os gregos começaram a experimentá-los (HOWART, 1984, p. 170-171).

O modelo de governo da pólis como esforço coletivo e exclusivo dos cidadãos, até então desconhecida em outras civilizações tem por fundamento a idéia de que os deuses abandonaram os homens. E a idéia do Destino, como força superior aos próprios deuses, sugere a visão democrática de que a lei está acima dos indivíduos. É nesse quadro que surge a reflexão filosófica, que busca uma lei universal, acima de todas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo sem recorrer a forças divinas.

Outras condições histórico-sociais também foram proporcionando o questionamento do mito. O renascimento comercial citado exigiu do homem grego o “lançar-se ao mar” para encontrar novos mercados. Com o desenvolvimento das viagens marítimas, os gregos começam a confrontar os fatos reais com as tradições míticas. Chegando às ilhas e regiões que constituem o pano de fundo das epopéias e dos relatos poéticos, o grego não encontra as “divindades” e as “criaturas” citadas pela tradição. Singrando os mares não encontra as sereias e nem tampouco é confrontado com Posseidon1. Em Creta não depara-se com o Minotauro2 mas sim, com um povo que está disposto a comercializar também, como nas demais regiões. Questionamentos surgem sobre a veracidade do mito e a possibilidade ou não de encontrar novas explicações para os fatos e fenômenos antes entendidos apenas de forma mítica. Concomitante a isto, há a invenção da moeda e um desenvolvimento da escrita e do calendário. Criada pelos sumérios, a escrita ganha novo sentido com os gregos que se descobrem capazes de expressar seu pensamento não mais de forma verbal apenas, mas, a partir da concepção do alfabeto e da construção fonética, de forma mais elaborada, por escrito. Estes fatos exigem uma abstração do pensamento, um maior rigor na formulação das idéias e, conseqüentemente, uma mudança cultural. O grego descobre que não precisa trocar as mercadorias através de coisas concretas (um cavalo por um boi, por exemplo), mas sim, que é possível uma troca abstrata (um cavalo por 20 moedas, por exemplo). É o desenvolvimento da capacidade de elaboração do pensamento de forma diferente. O calendário produz condições semelhantes ao permitir uma observação sobre os dias e as estações do ano e, desta forma a percepção da natureza em seu curso, desmistificando a ação divina sobre os fenômenos da natureza (como no caso de a colheita ter sido boa ou ruim devido ao “deus” e não às condições climáticas ou época do ano). Por fim, o surgimento da vida urbana, que impulsiona este renascimento comercial e diminui o prestígio da classe aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política, que exige a construção de uma nova relação social, como já foi explicado anteriormente.

Por todos estes fatores, portanto, e não por um “milagre” ou por “influência do oriente” como já esclarecemos, é que, no século VI a.C. Tales inicia a jornada que se tornará a grande aventura na História do Ocidente: o pensamento filosófico.

As mudanças começam a acontecer. Em torno do século V a.C. o homem, como cidadão-guerreiro, que fala e que combate, aparece como assumindo o seu destino. Nesta época, os gêneros culturais mudam de sentido e de estilo. A tragédia, antes fundamentalmente religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografia se afirma. As descrições lendárias e as genealogias míticas dão lugar a paisagens e costumes analisados e descritos com precisão. No campo da medicina surge um apelo pela investigação das causas das enfermidades e não mais aos recursos ambíguos da adivinhação. Na física o grego passa pouco a pouco das especulações mágicas para o estudo das relações fenomenais. A “arte da palavra” por sua vez deixa de ser privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qual todo cidadão dispõe, pelo menos em direito, para fazer valer suas opiniões e interesses.

O mito, contudo, não perdeu sua beleza, seu sentido que propiciou todo este progresso. É uma forma diferente de olhar a realidade. Hesíodo fala em suas obras do "abandono dos deuses" com relação aos homens. Há um princípio de "secularização" do pensamento. O homem não precisa mais recorrer aos deuses para explicar o mundo. Na Teogonia – de Hesíodo - o homem encontra-se sem deuses, abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre os séculos VIII e V a.C., portanto, desenvolve-se o esforço para a construção de uma sociedade justa, propiciada pelas condições históricas próprias do mundo grego. É neste contexto que nasce a filosofia e aparecem os primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos.

PARA SABER MAIS: veja um rápido panorama dos pré-socráticos ao helenismo para enriquecer nossa discussão sobre o nascimento da Filosofia. Acesse: http://educacao.uol.com.br/filosofia/ult3323u22.jhtm

1. Posseidon: na mitologia grega é o nome do “deus do mar”, irmão de Zeus. Teria, de acordo com o relato da Odisséia, sido o mentor dos problemas de Ulisses (do grego Odisseu) no seu retorno para casa. Para os romanos chamava-se Netuno.

2. Minotauro: criatura que habitava o labirinto em Cretas, onde Minos, rei da ilha colocava seus inimigos para serem mortos pelo monstro. Teseu, o herói grego, vence a criatura e consegue sair do labirinto utilizando-se de um novelo de linha para reencontrar o caminho.

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