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Os Caminhos Da Liberdade - JEAN-PAUL SARTRE

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Por:   •  14/10/2013  •  11.226 Palavras (45 Páginas)  •  607 Visualizações

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JEAN-PAUL SARTRE

Os Caminhos da Liberdade

COM A MORTE NA ALMA

TRADUÇãO DE ISABEL BRITO

3 .' edição

LIVRARIA BERTRAND

Título da edição original: LA MORT DANS L'AW

Capa de josé Cândido

Éditions Galffinard, 1949 Difel, 1968

Livraria Bertrand, S. A. R. L., 1975

Todos os direitos reservados para a publicação desta obra em lingua portuguesa pela LIVRARIA BERTRAND, S. A. R. L. (Lisboa)

Acabou de imprimir-se em Agosto de 1983

PRIMEIRA PARTE

Nova Iorque, nove horas da manhã, sábado, 15 de Junho de 1940. Um polvo? Pegou na faca, abriu os olhos, era um sonho. Não. O polvo estava lá, sugava-o com as ventosas: o calor. Suava. Tinha adormecido cerca da -uma hora; às duas, o calor havia-o acordado, mergulhara num banho frio e tornara-se a deitar sem se limpar; logo em -seguida a forja volt-ara -a ressoar-lhe sob a pele, recomeçara a transpirar. De madrugada tinha adormecido, sonhou com incêndios; agora o Sol já ia -alto, e Gomez suava ainda: suava sem interrupção há quarenta e oito horas. "Meu Deus!", suspirava ao passar a mão pelo peito molhado. Isto não era do calor, era uma doença da atmosfera: o ar tinha febre, o ar -suava, desfazía-se em suor. Levantar-se. Começar a suar dentro de uma camisa. Erguer-se: "Hombre! Já não tenho maiscamisas." Encharcara a última, a azul, porque era obrigado a mudar-se duas vezes por dia. Agora era o fim: usaria este trapo húmido e mal cheiroso até que a roupa viesse da lavandaria. Levantou-se cautelosamente, mas sem poder evitar a inundação, as gotas corriam-lhe pelo corpo como piolhos e faziam-lhe cócegas. A camisa amarrotada, cheia de pregas, estava no espaldar da cadeira. Apalpou-a: nada seca neste país de merda. O coração batia-lhe, sentia um travo na boca, como se se tivesse embriagado na véspera. Vestiu as calças, aproximou-se da janela e correu as cortinas: na rua, a luminosidade era branca como uma catástrofe; mais treze horas de luz. Olhou para a rua com angústia e raiva. A mesma

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catástrofe: lá longe, na fértil terra negra, debaixo de fumo, sangue e gritos; aqui, entre as casinhas de tijolo vermelho, luz, apenas luz, apenas luz e transpiração. Mas era a mesma catástrofe. Dois negros passaram e riram, uma mulher entrou no drugstore. "Meu Deus!" Via as cores tornarem-se berrantes: mesmo tendo tempo, mesmo tendo cabeça para isso, como poderia pintar com esta luminosidade! ",Meu Deus!", disse, "meu Deus!" Bateram à porta. Gomez foi abrir. Era Rítchie. -É um crime-disse Ritchie ao entrar. Gomez estremeceu: -o quê? - Este calor: é um crime. O quê - acrescentou com um ar de censura -, não estás vestido? Ramon espera-nos às dez horas. Gomez encolheu os ombros: - Adormeci tarde. Ritchie offiou-o a sorrir, e Gomez apressou-se a acrescentar: - Está muito calor. Não consigo dormir. - Acontece, nos primeiros tempos - disse Ritchie complacentemente. - Depois habituas-te - Tomas pastilhas de sal? - Olhou para ele atentamente. - Sim, claro, mas não fazem efeito. Ritchie abanou a cabeça e a sua benevolência matizou-se de severidade: -as pastilhas de sal deviam impedir a transpíração. Se não produziam efeito em Gomez, então ele não era como as outras pessoas. - Mas então! disse subitamente Ritchie, franzindo o so- brolho -, tu devias estar treinado: em Espanha também há muito calor. Gomez pensou nas manhãs secas e trágicas de Madrid, nessa bela luminosidade sobre Alcalá, que era ainda a esperança; abanou a cabeça: - Não era o mesmo calor. - Menos húmido, não? - disse Ritchie, com uma espécie de orgulho. - Sim. E mais humano, ~ 11 Ritchie tinha um jornal na mão; Gomez estendeu o braço para lhe pegar, mas não ousou. A mão pendeu-lhe. -É' um grande dia - dis~e Ritchie alegremente-: a festa de Delaware. Sou de lá, sabes? Abriu o jornal na décima terceira página; Gomez viu uma fotografia. Lá Guardia cumprimentava um homem forte e ambos sorriam com naturalidade. - Este tipo à esquerda - continuou Ritchie - é o governador de DêIaare. Lá Guardiarecebeu-o ontem no World Hall. Foi formidável. Gomez tinha vontade de lhearrancar o jornal e de ver a pri meira página. Maspensou: "Estou-me nas tíntas", efoi para a casa de banho. Encheu a banheira de água fria e barbeou-se rapidamente. Quando se ia a meter nobanho, Ritchie gritou-lhe: -Como vais de massas? -Muito mal. já não tenho nenhuma camisa e restam-me dezoito dólares. Além disso, Manuel chega na segunda-feira, tenho de lhe devolver o apartamento. Mas estava a pensar no jornal: Ritchie lia enquanto esperava; Gomez ouvía-o voltar as páginas. Limpou-se cuidadosamente; em vão: e água emergia da toalha. Enfiou a camisa húmida, esfregando-a nas costas, e entrou no quarto. -Desafio dos Gigantes. Gomez olhou Ritchie sem compreender. - O basebol, ontem. Ganharam os Gigantes. -Ah!, sim, o basebol..,. Baixou-se para apertar os sapatos. Procurava ler, espreitando, os títulos da primeira página. Acabou por perguntar: -E Paris? -Não ouviste a rádio? - Não tenho rádio. -Acabado, liquidado - disse Rítchíe tranquilamente. ---Entraram esta noite. Gomez dirigiu-se para a janela, colou a testa ao caixilho escal- 12 dante, olhou para a rua. Este sol inútil, este dia inútil. De futuro, apenas dias inúteis. Voltou-se e deixou-se cair na cama. -Despacha-te-- disse Ritchie. -Ramon, não gosta de esperar. Gomez levantou-se. A camisa já estava encharcada. Foi pôr a gravata em frente do espelho: -Ele está de acordo? -Em princípio, sim. Sessenta dólares por semana e farás a crónica das exposições. Mas ele quer ver-te. - Ver-me-à - disse Gomez. - Ver-me-á. Voltou-se bruscamente: - Preciso de um adiantamento. Achas que ele irá nisso? Ritchie encolheu os ombros. e, após um momento: -Disse-lhe que vieste de Espanha e ele desconfia de que não -tens grande admiração por Franco; -mas não lhe falei das tuas... explorações. Não lhe digas que eras general: no fundo, não sabemos o que pensa. General! Gomez olhou para as calças usadas e para as manchas escuras que o suor punha na camisa. Disse serenamente: -Não tenhas medo, não tenho vontade de me gabar. Sei o que custa, aqui, ter feito a guerra em Espanha: há seis meses que

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