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"A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO UM INSTRUMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA EDUCAÇÃO INFANTIL".

Por:   •  10/2/2014  •  9.786 Palavras (40 Páginas)  •  5.203 Visualizações

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“A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO UM INSTRUMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA EDUCAÇÃO INFANTIL”.

Monografia apresentada como exigência do curso de Pedagogia.

BAURU SP

2013

“A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO UM INSTRUMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA EDUCAÇÃO INFANTIL”

Fernanda Aparecida Janeiro

Giselle Hermelinda Roda

APROVADA EM____/____/2013

BANCA EXAMINADORA

Prof.º________________________________________

COORDENADOR

Dedico este trabalho aos meus pais pelo exemplo de coragem e persistência em suas metas. Aos meus irmãos e amigos que tantas vezes usurpados da minha presença, mas não do meu amor, sempre torceram por mim para concretização desse meu sonho.

AGRADECIMENTOS

A Deus, o que seria de mim sem a fé que eu tenho nele.

Aos meus pais Dirceu Janeiro e Elza Thomazi Janeiro, irmãos

Aline e Roberto, meu sobrinho Gabriel, e a toda minha família

que, com muito carinho e apoio, não mediram esforços para que

eu chegasse até esta etapa de minha vida.

A Danielle Pereira pela paciência na orientação e incentivo que

tornaram possível a conclusão desta monografia.

À professora e coordenadora do curso, pelo convívio, pelo apoio,

pela compreensão e pela amizade.

A todos os professores do curso, que foram tão importantes na

minha vida acadêmica.

Aos amigos e colegas de sala e em especial a minha amiga

Giselle Roda obrigada por você existir , uma criatura linda

que Deus colocou em meus caminhos. De início não entendi,

bem ao certo, hoje sei que você faz parte da minha vida,

simplesmente porque divide comigo todos os momentos,

alegrias, tristezas, ganhos, perdas, me abraça quando precisa

me dá uma dura quando preciso.

Sonho parece verdade quando a gente esquece acorda, hoje viro uma realidade, que parece um sonho, mas foi preciso muito esforço, determinação, paciência, perseverança, ousadia e maturalidade para chegar até aqui e nada disso eu conseguiria sozinha.

Minha eterna gratidão a todos aqueles que colaboraram para que esse sonho pudesse se concretizar.

Grata a Deus pelo dom da minha vida pelo seu amor infinito, sem ele nada sou.

Agradeço meu pai José Genésio Roda pelo apoio, minha mãe (in memória) Fátima Lucia Roda, ao meu irmão Luiz Augusto Roda e minha cunhada Renata Roda pelo amor e compreensão.

Ao meu filho Miguel Roda pela ausência em todas as noites e pelo seu carinho dizendo mãe você vai à dificuldade hoje.

A minha orientadora Danielle Pereira pelo carinho e atenção.

Aos meu colegas de sala em especial a Fernanda Janeiro a quem aprendi amar e construir laços eternos.

Aos meus amigos Priscilla Michelotto, Katlen Simon, Lúcia Boletti, Bruna Maria, Elaine Pereira, Iracema Rodrigues pelo carinho e por estarem sempre presente em minha vida.

Em especial a minha Tia Magali Roda meu porto seguro em minha vida.

Contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte e convidá-lo a se apaixonar... pelo livro... pela história... pela leitura... E tem gente que ainda duvida disso

Eva L. Trierveiler do Nascimento

RESUMO

Neste trabalho desenvolvemos uma pesquisa que trata sobre a contação de histórias como um instrumento para o desenvolvimento da criança na Educação Infantil e incentivar sua formação leitora na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância, tendo como meio para realização da mesma uma pesquisa bibliográfica. Iniciamos com o breve histórico, resgatando a origem dos contos e alguns dos principais percussores da Literatura Infantil, Perrault, irmãos Grimm, James Bar,rie e Hans Christian Andersen, baseadas na obra de Bárbara Vasconcelos de Carvalho: A literatura Infantil: visão histórica e crítica. Buscamos apresentar a importância que as histórias infantis principalmente os contos de fadas trazem para a formação de qualquer criança, pois ouvir muitas histórias escutá-las é o início da aprendizagem para ser um bom leitor e também é um meio significativo para se trabalhar, elas estão carregadas de emoções, como: medo, tristeza, raiva, espanto, pavor, insegurança, tranqüilidade, saudade e lembranças suscitando assim o imaginário de cada criança. Desenvolvemos um capítulo especialmente para tratar sobre as particularidades de alguns contos que se assemelham ao universo infantil, tais como, o medo, a dificuldade de ser criança, carência, autodescoberta, perdas e buscas e o amor. Finalizamos tratando da importância da leitura na primeira infância, os cuidados que um contador de histórias deve ter e a classificação das histórias por faixa etária de interesse. Concluímos então que a contação de histórias é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa.

Palavras – chaves: Histórias infantis; desenvolvimento; aprendizagem prazerosa.

ABSTRACT

In this work we developed a survey that comes about storytelling as a tool for development of children in kindergarten and encourage their formation reader at the age where all habits are formed, ie, childhood, and as a means of achieving same bibliographic research. We begin with a brief history, rescuing the origin of the stories and some of the main precursors of Children's Literature, Perrault, Brothers Grimm, James Barrie and Hans Christian Andersen, based on the work of Barbara Vasconcelos de Carvalho: Children's Literature: historical overview and critique. We seek to present the importance of children's stories mostly fairy tales bring to the formation of any child as hear many stories to listen to them is the beginning of learning to be a good player and is also a significant means to work, they are laden with emotions, such as fear, sadness, anger, surprise, fear, insecurity, tranquility, nostalgia and memories thus raising the imagination of every child. Developed specifically to treat a chapter about the particularities of some stories that resemble the infant universe, such as fear, the difficulty of being a child, grace, self-discovery, love and loss and searches. We finished addressing the importance of reading in early childhood care that a storyteller should have and classification of stories by the age of interest. We conclude that the storytelling is a path that leads the child to develop imagination, emotions and feelings so pleasurable and meaningful.

Key - words: Children's Stories; development; learning enjoyable.

SUMÁRIO

RESUMO............................................................................................................................06

1 INTRODUÇÃO...............................................................................................................09

2 CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS SOBRE A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS...10

2.1 A arte de contar histórias...............................................................................................11

2.2 A arte de contar histórias em uma sociedade em mudanças.........................................13

2.3 Por que contar histórias?................................................................................................13

2.4 Os contos de fadas..........................................................................................................15

2.5 Contar histórias como potencial terapêutico..................................................................19

3 O QUE MAIS OS CONTOS DE FADAS PODEM TRAZER SOBRE A PARTICULARIDADE INFANTIL........................................................................22

3.1 As dificuldades de ser criança........................................................................................22

3.2 Carência..........................................................................................................................23

3.3 Autodescobertas.............................................................................................................24

3.4 Perdas e buscas...............................................................................................................25

3.5 Amor..............................................................................................................................26

4 IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA PRIMEIRA INFÂNCIA..................................27

4.1 O contador de histórias: o que ele deve saber................................................................34

4.2 Classificação das histórias por faixa etária de interesse.................................................38

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................42

REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS................................................................................43

1 INTRODUÇÃO

Para nortear este trabalho e desenvolvê-lo de maneira clara e objetiva utilizamos como embasamento teórico os autores Fanny Abramovich, Vera Teixeira de Aguiar, Bruno Bettelheim, Betty Coelho, Bárbara Vasconcelos de Carvalho, Jonas Ribeiro e Isabel Maria de Carvalho Vieira.

Entendemos que ao fazer uso da contação de histórias estamos diante de um precioso recurso da Literatura Infantil que estará viabilizando a articulação entre todos os eixos dos Referenciais Curriculares Nacionais e, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, as áreas do conhecimento, de maneira significativa e prazerosa para as crianças, porque o conto de fadas procede de uma maneira consoante ao caminho pelo qual uma criança pensa e experimenta o mundo e por esta razão os contos são convincentes para ela... Ela pode obter um consolo muito maior de um conto de fadas do que de um esforço para consolá-la baseado em raciocínio e pontos de vista adultos.

Partindo desse pressuposto podemos afirmar então que as crianças utilizam as situações vividas em cada história para tentar compreender o mundo a sua volta. Os pequenos ainda não compreendem que isto está acontecendo, mas nós os adultos podemos através da observação perceber a utilidade prática que as histórias infantis podem trazer para os alunos dentro da sala de aula, um exemplo claro disto seria: o desenvolvimento da oralidade e ampliação do conhecimento de mundo que a própria criança começa a demonstrar através da fala e de suas ações.

Portanto, não podemos fechar os olhos diante de uma prática tão importante e envolvente como o momento da contação de histórias. Devemos utilizar este meio para tornar as aulas mais prazerosas e significativas para o aluno da Educação Infantil, lembrando sempre que a busca e a utilização de práticas que respeitam a especificidade da criança sempre trarão resultados positivos, contudo não podemos nos descuidar do momento em que vamos escolher o volume a ser usado e também o modo como vamos encaminhar a contação, mas este é um dos assuntos que está pesquisa estará abordando em seu desenvolvimento.

2 CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS SOBRE A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS.

2.1 A arte de contar histórias

Durante muitos séculos, homens sentaram-se ao redor de fogueiras para contar e ouvir histórias. Um contador de histórias, em todo tempo e lugar, encontrava quem o escutasse. Antigamente, a atividade de contar histórias era o que conservava e transmitia a história e o conhecimento acumulado pelas gerações, os costumes e valores a serem preservados, através da oralidade.

Nos últimos anos, a arte de contar histórias vem sendo retomada não apenas por terapeutas e educadores, mas por pessoas de todas as formações, de várias camadas da sociedade, que se reúnem para partilhar sabedoria, afeto e energia através das narrativas. Para fazê-lo não há regras: o melhor é usar o coração e a intuição, além da experiência que só é adquirida através do tempo.

Ouvir histórias é uma possibilidade de descobrir o mundo intenso de conflitos, das dificuldades, dos impasses, das soluções que todos nós atravessamos, de um jeito ou de outro, através dos problemas que vão sendo defrontados pelos personagens, esclarecer melhor ou encontrar um caminho possível para a resolução deles.

Nossos ancestrais inventaram a arte de contar histórias como forma mais econômica e eficiente para responder questões como: moral, ética, encorajamento de certos padrões de comportamentos, os quais conduzem a resultados positivos, a arte do debate e sua aplicação na vida. Desta forma estamos aprendendo a nos tornar seres humanos de uma maneira lúdica, colorida e educativa.

Não se sabe qual foi à primeira história, nem quem a contou, pois as histórias são tão antigas quanto às comunidades humanas.

Por ter sido oral, a forma primitiva de transmissão, é evidente que não se pode fixar origem. Então, de onde vieram as histórias? De todas as partes do mundo, através do povo.

As histórias de tradição oral são anônimas porque não são de ninguém, pertencem a todo mundo e não existe nesse mundo um só povo que não tenha suas histórias. Por serem um elo que une as pessoas, elas de certo modo são uma necessidade do ser humano, por isso, mais importante do que saber quem contou pela primeira vez e qual foi a história, devemos agradecer por elas existirem e nos ajudarem a compreender melhor o mundo em que vivemos.

A arte de contar histórias viabiliza através da oralidade, resgatar a memória do mundo retirando de dentro do baú, histórias contadas em todas as partes do mundo, em todos os lugares onde estiverem presentes, pessoas dispostas a escutar. Não importa quantas vezes uma história é contada, ela não se gasta. Uma história sempre apresenta uma nova face para quem conta e para quem ouve.

2.2 A arte de contar histórias em uma sociedade em mudanças.

Para pensar a literatura infantil é necessário pensar no seu leitor: a criança. Até o século XVII as crianças conviviam igualmente com os adultos, não havia um mundo infantil, diferente e separado ou uma visão especial de infância. Não se escrevia, portanto, para as crianças.

A ideia de infância não existiu sempre e da mesma maneira. Ao contrário, ela aparece com a sociedade capitalista urbana industrial, na medida em que mudam a inserção e o papel social da criança na comunidade. Se na sociedade feudal, a criança exercia um papel produtivo direto (“de adulto”) assim que ultrapassava o período de alta mortalidade, na sociedade burguesa, ela passa a ser alguém que precisava ser cuidada, escolarizada e preparada para uma atuação futura. Esse conceito de infância é, pois determinado historicamente pela modificação nas formas de organização da sociedade. (KRAMER , 1996. p. 18).

A literatura infantil surgiu com o advento da classe média, da burguesia mais atuante, do século XVII. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura, com atribuições semelhantes as dos adultos. Portanto, sua educação, costumes, entretenimentos e papel na sociedade não diferiam muito da dos pais.

Os contos de hoje chamados de fadas, na realidade, não foram imaginados para crianças. Sua audiência era, certamente, adultos, através “Veille”, e as histórias nada tinham de inocente, elementos como bárbaros assassinatos, adultério, incesto, pactos com demônios não seriam particularmente indicados para ouvidos infantis, pelo menos não do modo como hoje encaramos essas doces criaturinhas...

A tradição dos contos narrados por doces babás ou carinhosas vovós, surgiu em 1697 com a publicação dos contos dos Tempos Passados, do francês Charles Perrault, cujo subtítulo, Contos da mamãe gansa, se tornou mais conhecido entre nós. Este era uma coletânea de oito contos que ganhou mais três numa edição posterior

No entanto, ao publicar os oito contos que restavam de sua pesquisa em prosa (considerada língua vulgar), fez registrar em nome de Pierre d’Armancourt, pois a literatura para criança era considerada menor.

Apesar de ter feito alterações, Perrault foi o que mais se aproximou da literatura oral. Suas personagens são de todos os níveis sociais, sua linguagem era viva e plástica. Foi muito criticado pelos acadêmicos de sua época, porém, as histórias infantis foi o que o imortalizou.

É no século XVIII que a burguesia se consolida como classe social. Com a industrialização há uma multiplicação na produção de livros e a literatura parte para a busca do conhecimento (o iluminismo), onde só havia lugar para a razão e o raciocínio com os seus enciclopedistas.

O século XIX vem reabilitar a fantasia e restabelecer o clima para os contos de fadas e são os irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm) que animados pelo espírito romântico, vão buscar as suas histórias “vivas” na pureza e na simplicidade e revalorizar os contos maravilhosos. Os contos fazem parte, portanto, de uma literatura que reflete as mudanças rápidas e profundas que a sociedade de então experimentava. Viajando pela Alemanha. Os dois irmãos vão colhendo de diversos narradores as histórias que circulava na boca do povo. Através de Dorotea Viehmman, uma velha mulher do povo, recolheram duzentos contos de fadas, sem falar em dez lendas, seiscentas cantigas folclóricas entre outros.

Na tradição oral, as histórias não eram destinadas ao público infantil e sim aos adultos. Foram os irmãos Grimm que dedicaram-nas às crianças por sua temática mágica e maravilhosa. Fundiram assim, esses dois universos: o popular e o infantil.

Tal como fizeram os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen foi um escritor que se preocupou, essencialmente, com a sensibilidade exaltada pelo Romantismo. Aos 11 anos, órfão de pai, sentiu-se no mundo completamente só. Pouco freqüentou a escola, aparecendo somente nos intervalo, pois a maior parte de seu tempo consumiu-se com as histórias que imaginava, o que fazia melhor que suas lições. Dono de uma memória privilegiada, Hans Christian podia aprender e guardar na cabeça, muito facilmente, tudo o que ouvia de um vizinho que tinha o hábito de estudar em voz alta.

Em 1835, Andersen publicou quatro histórias sob o título de Contos de Fadas para crianças. Quem leu crianças e adultos, pediram mais e até 1873 publicou 168 contos. Foi considerado o precursor da literatura infantil mundial, foi à primeira voz autenticamente romântica a contar histórias para as crianças.

A literatura infantil no Brasil foi antecedida por uma intensa atividade representada pelo jornalismo e por traduções, o que nos permite admiti-la como a primeira fase da Literatura Infantil num período preparatório de amadurecimento.

Se a arte de escrever já é, em si, complexa e difícil, tornar-se-á mais ainda, quando se escreve para criança. As crianças são muito exigentes, é preciso ser ou tornar-se criança para agradá-las.

Em 1894, Alberto Figueiredo Pimentel lança pela editora Quaresma o primeiro livro para crianças – Contos da Carochinha – que é uma coletânea de contos populares, onde ele traduz e dá um caráter brasileiro às histórias.

No Brasil, a Literatura Infantil iniciou-se com Monteiro Lobato. Ele não apenas escreveu livros para crianças, como também criou um universo para elas. Seus textos têm proximidade com a fala cotidiana, ele não recriou seus contos de outros, ele os criou. Embora se utilizasse do rico e maravilhoso acervo da literatura clássica de todo mundo, a sua maior inspiração foi a própria criança.

Lobato realizou uma obra onde a criança é desinibida e autêntica e além de tudo, é livre para ser criança. O grande desafio de seus personagens é o conhecimento, é através dele que se impõem. A moralidade tradicional é dissolvida e o grande valor passa a ser a inteligência. A esperteza, habilidade quase maliciosa da inteligência é igualmente valorizada.

2.3 Por que contar histórias?

“Era uma vez...” tem sido a senha para se entrar no maravilhoso mundo dos contos, lendas e fábulas. Basta que alguém pronuncie estas três palavrinhas mágicas que o encanto acontece, e crianças e adultos hipnotizados, esperam que o contador prossiga com sua narrativa.

“Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo...” ABRAMOVICH, 1989, p.16.

Ao se ouvir uma história tem-se a possibilidade de refletir sobre a vida, sobre a morte, sobre nossas atitudes e escolhas, pois elas falam de dor, luta, compreensão, compaixão, solidariedade, esperança, e isso tudo proporciona enorme prazer.

Segundo Fanny Abramovich (1989), “é ouvindo histórias que se pode sentir emoções importantes, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranqüilidade e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouvem com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma dela fez (ou não) brotar... Pois ouvir histórias é sentir e enxergar com os olhos do imaginário!”.

Por meio de uma história é que se podem descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É saber de história, geografia, filosofia, política, sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar quem tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo).

Segundo Coelho (2005) “na frase de leitor iniciante, que é o caso das crianças das pré – escolas, as histórias podem ser as fusões de dois mundos: o da fantasia e o do real, enfatizando o fenômeno de pensar, do sentir e do querer em sua necessária complementaridade”.

Uma das grandes virtudes da literatura para o ensino, especialmente em Educação Infantil é atuar na fusão dos mundos da fantasia com o real. Trata-se da valorização dessa capacidade criativa e inventiva das crianças, estimulando-as a explorar esses limites e esses dois mundos de forma simultânea, é o que se busca estimular: o exercício na recriação de lugares mediante uma contação de histórias.

O contato da criança com a literatura por meio da contação de histórias possibilitará desenvolver sua percepção tanto do espaço como do lugar. Diferenciam-se essas duas categorias na relação corporal e sensitiva da criança, ou seja, o lugar é o meio sensitivo e experimental do corpo, enquanto o espaço não pode ser vivenciado e nem experimentado pelo corpo. O Brasil não é um lugar, nessa concepção, pois ninguém por meio dos sentidos (que são corporais) consegue vivê-lo, mas é um espaço, enquanto sala de aula, a casa, pois são lugares onde se vive e sente o ambiente.

Dessa forma, no contato da criança com a literatura, por meio de conversas ou mesmo de contações de histórias ela terá possibilidade de desenvolver sua percepção tanto de espaço quanto de lugar.

A recriação de lugares, ou seja, a descrição de lugares, mesmo ficcionais, que são frutos da imaginação das crianças por meio da literatura e de desenhos é uma forma de exercitar várias das utopias que a educação contemporânea tem buscado alcançar, colocando em relevo a experiência da criança e estimulante a criticidade, a criatividade, a autonomia e autoconhecimento. Sugerir que a criança crie desenhos ou brinque de faz de conta fará com que, a partir dessa experiência imaginativa da literatura, possa ela mesma continuar a investigar o mundo em busca de novos lugares e novas experiências, ampliando seus conhecimentos e inserindo-se na sua própria realidade cotidiana.

Através do prazer ou das emoções que as histórias proporcionam, o simbolismo que está implícito nas tramas e personagens, vão agir no inconsciente, atuando pouco a pouco para ajudar nessa face da vida.

De maneira inconsciente e divertida, a criança entra em contato com a sabedoria humana que vem da origem dos tempos, foi guardada pela memória dos povos e transmitida pelo “contar histórias”, mais que entretenimento prazeroso, é uma experiência vital, é um exercício de viver.

Nesse sentido os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta.

2.4 Os contos de fadas

São contos de natureza espiritual, ética, existencial. Contém verdades eternas, sobrevivem devido ao elemento afetivo real, eles mostram os papéis reais da vida, não partem do imaginário, mas sim do real, mesmo que simbolicamente. Não precisa necessariamente ter fada, mas se tiver, ela tem que transformar algo, fazer o papel mágico.

Os contos de fadas chegaram até nós graças a algumas pessoas que sempre acreditaram na importância deles.

Os mais conhecidos pesquisadores, coletores e escritores de contos de fadas são:

- Charles Perrault (1628-1703): dentre as histórias que coletou, estas são as mais conhecidas: O gato de botas, Barba azul, O pequeno polegar, A bela adormecida etc..

- Irmãos Grimm: Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859): Dentre as várias histórias que transcreveram, estas foram as mais lidas: Branca de neve e os sete anões, João e Maria, Cinderela, Chapeuzinho vermelho, A bela e a fera, Rapunzel etc..

- Hans Christian Andersen (1805-1875): Escreveu a memória de suas histórias. Dentre as mais conhecidas, estão: O patinho feio, A pequena vendedora de fósforos, Polegarina, A sereiazinha etc..

Os contos de fadas sendo de Perrault, de Grimm ou Andersen encantam e cativam crianças até os dias de hoje, com suas histórias fantásticas que, de uma forma indireta, as ensinam a aceitarem o medo, a perda, a conhecer o amor, o valor de uma amizade... Sem falar é claro, das bruxas, fadas, lobos maus, príncipes encantados, princesas, sapos e tantos outros personagens que aparecem, geralmente para oferecer uma mensagem ao leitor ou ao ouvinte.

É através dessas histórias que as crianças vão trabalhando dentro de suas cabecinhas e dos seus coraçõezinhos certos conflitos, buscando soluções, procurando respostas para aquilo que não está bem. O interessante, nesses casos, é que a criança pode se identificar com um personagem, transferir todos os seus conflitos para aqueles vividos na história. Quando o problema estiver resolvido, ela simplesmente não pedirá mais essa história.

A criança se envolve tanto com os contos de fadas que, muitas vezes, começa a viver como os personagens. Quem nunca sonhou em virar uma Cinderela, ter uma carruagem e um lindo vestido e encontrar seu príncipe encantado, ou ser como Peter Pan, viver na terra do Nunca e ser criança para sempre! Todo esse processo faz parte da imaginação, da fantasia vivida durante a contação de histórias.

Os contos de fadas mantêm uma estrutura fixa. Partem de um problema vinculado à realidade (como estado de penúria, carência afetiva, conflito entre mãe e filho) que desequilibra a tranqüilidade essencial. O desenvolvimento é uma busca de solução, no plano da fantasia, com a introdução de elementos mágicos (fadas, bruxas, anões, duendes, gigantes etc.). A restauração da ordem acontece no desfecho da narrativa, quando há uma volta ao real. (AGUIAR, 1985, p.28).

Os assuntos tratados nos contos são reais, tais como os medos que a criança pequena enfrenta: medo do escuro, do cachorro, da mãe deixá-la na escola e não buscá-la mais etc., medos que fazem parte da vida e, de uma mentira ou de outro, aprendem a enfrentar. Temores reais ou imaginários relacionados à escola, temor dos mais fortes, das punições da igreja, do próprio ridículo... medos com os quais todos convivem de um jeito ou de outro, mas que se aprende a superar, conviver ou a lidar com eles.

Valendo-se desta estrutura, os autores, de um lado demonstram que aceitam o potencial imaginativo infantil e, de outro, transmitem à criança a idéia de que ela não pode viver indefinidamente no mundo da fantasia, sendo necessário assumir o real, no momento certo.

Em seu livro Literatura Infantil: gostosuras e bobices, Fanny Abramovich diz que os contos de fadas falam dos medos, do amor, da dificuldade de ser criança, de carência, das autodescobertas e da descoberta da própria identidade o que é fundamental para o crescimento. Ele ainda fala das perdas e buscas, dos abandonos, de esquecimentos. Falam até de quem um dia foi significativo, marcante, mas que, por várias razões já não o é. Fala também da morte, que já não toca ou comove tanto como antes.

Esses contos de fadas nos falam de traições, de temores, de juramentos, de sentimentos de perda, de infidelidade, de carências, de abandonos, de esquecimentos... De que, às vezes, os irmãos, os familiares próximos são maus, perversos, injustos, vingativos e que a ajuda pode chegar através de desconhecidos (raposas, rãs, velhos, fadas, duendes), de desafios terríveis que tem que ser enfrentados (remover montanhas, encarar ogros, trabalhar como escravos), de prisões, de amor... Falam de tristezas, de desconforto, de revelações, de sexualidade. Falam-nos da vida e da morte, de ciclos que se iniciam e se fecham... Nos falam da dificuldade de ser criança ou jovem, de como é preciso provar nossa capacidade a cada instante, de como temos que nos afirmar como pessoas, o que só acontecerá quando nossa própria identidade tiver sido alcançada, após um longo período de buscas, de sofrimentos, de rejeições... E de como todas essas turbulências internas que fazem parte da condição humana, também podem ser compreendidas ou resolvidas através do encantamento, da magia, da presença do maravilhoso... Falam de pessoas e de buscas de felicidades. (ABRAMOVICH, 1989, p.137).

Os contos de fadas são tão ricos que tem sido fonte de estudo para psicanalistas, sociólogos, antropólogos, psicólogos, cada qual dando sua interpretação e se aprofundando no seu eixo de interessa.

Os contos de fadas são muito mais que simples realizações de nossas fantasias. Seus heróis e heroínas conquistaram a felicidade só depois de superar muitos obstáculos e enfrentar duras tribulações. As histórias em contos mostram-nos a luta em prol dos sonhos e ideias mais difíceis de serem alcançados.

Lembra Cecília Meireles (1984, p.55) que “não se pode pensar numa infância e começar logo com gramática e retórica: narrativa oral cerca a criança de antigamente, como as de hoje”. Assim, “mitos, fábulas, lendas, teogonias, aventuras, poesia, teatro, festas populares, jogos, representações várias ocuparam no passado, o lugar que hoje concedemos ao livro infantil”. E acrescenta: “quase se lamenta menos a criança de outrora, sem leituras especializadas, que as de hoje, sem os contadores de histórias”.

Portanto, quanto mais lermos ou contarmos para as crianças ou mesmo oportunizamos momentos de leitura em sala de aula, mais estaremos favorecendo o desenvolvimento infantil, ou seja, estaremos auxiliando no seu crescimento cognitivo, afetivo e social.

Estudiosos importantes e fecundos alertam:

Explicar para uma criança porque um conto de fadas é tão cativante para ela, destrói acima de tudo, o encantamento da história, que depende, em grau considerável de criança, não saber absolutamente porque está maravilhada. E ao lado do confisco deste poder de encantar vai também uma perda do potencial da história em ajudar a criança a lutar por si só e dominar exclusivamente por si só o problema que fez a história estimulante para ela. As interpretações adultas, por mais corretas que sejam, rouba da criança a oportunidade de sentir que ela por sua própria conta, através de repetidas audições e de ruminar acerca da história, enfrentou com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos sentidos na vida e segurança em nós mesmos, por termos entendido ou resolvido problemas pessoais por nossa conta, e não por eles não terem sido explicados por outros. (BETTELHEIM, 1980, p.27).

Para os contos de fadas atingirem os significados simbólicos e interpessoais, precisa ser contado (interpretado com emoções) e não lido.

Segundo a psicanalista e psicóloga : Isabel Maria de Carvalho Vieira, 2005:

... o que nos importa é referendar a importância dos contos de fadas no desenvolvimento intelectual e emocional das crianças. Todas as pessoas que trabalham com educação e saúde engendram esforços para proporcionar condições que favoreçam a integração psicológica. Se os contos de fadas se apresentam com possibilidades de favorecer essa integração, não há como desconsiderá-los.

Para Bettelheim, “ouvir os contos de fadas podem ser comparado a espalhar sementes, onde só algumas ficarão implantadas na mente da criança. Algumas ficarão trabalhando na sua mente de imediato; outras estimularão processos no seu inconsciente”.

Acreditamos que, quando o ouvinte se identifica com os personagens da história ele aprende pouco a pouco a superar os obstáculos e “visualizar-se” como o herói. E a partir dessa “conexão”, vai ganhando força e garra para transpor tudo o que esteja impedindo de curar-se de determinado problema que esteja passando.

Tudo porque a nível inconsciente há uma ação, uma força maior que permite a pessoa progredir e enfrentar as dificuldades.

2.5 Contar histórias como potencial terapêutico.

O estudo e a discussão em torno da adequação da narrativa dos contos para crianças, especialmente para crianças pequenas, tem perdurado de geração a geração, de professores, psicólogos, psicanalistas assim como entre orientadores educacionais e coordenadores pedagógicos.

O potencial terapêutico de contar histórias é hoje incontestável.É mesmo possível afirmar que as histórias representaram sempre e de forma empírica uma importante contribuição para a estrutura da vida emocional de crianças e adultos.

Em A psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim, (2005). Faz uma radiologia dos contos de fadas:

... os contos de fadas, considerado por pais e educadores até pouco tempo como irreais, falsos e cheios de crueldade, são para as crianças, o que há de mais real, algo que lhes fala, em linguagem acessível, do que é real dentro delas. Os pais temem que os contos de fadas afastem as crianças da realidade, através de mágicas e fantasias. Porém, o real, o que os adultos comumente se referem, é o externo, é o mundo circundante, enquanto que os contos de fadas falam de um mundo mais real para as crianças. E deixa isso bem claro quando situa as histórias na “Terra do nunca”, ou na Era uma vez um país muito longe... , ou numa época em que os bichos falavam, evidenciando, assim, que não se trata do aqui, nem do agora da realidade adulta, mas de um território fora do tempo e do espaço.

Os contos podem ser vistos, portanto, como instrumentos que ajudam a pensar, a digerir suas manifestações mais arcaicas e a maioria dos trabalhos clínicos ou educativos confirmam os benefícios obtidos para a capacidade de verbalização, manifestados pela capacidade de contar, perguntar.

Em seu livro Ouvidos Dourados, Jonas Ribeiro retrata em âmbito hospitalar a linguagem simbólica dos contos de fadas e como a criança constrói uma ponte de significação do mundo exterior para o seu mundo interior, restabelecendo a conexão entre consciente e inconsciente.

O ato de narrar histórias infantis em âmbito hospitalar, como um dos instrumentais do tratamento total oferecido às crianças internadas, tem como objetivo proporcionar alguma melhora e algum alívio da dor psíquica e/ou física. Além de que esses instantes permitirão preencher parcialmente a ausência da escola provocada pela internação. E, acima de tudo, permitirão devolver à criança a fantasia que, comumente, a instituição hospitalar tira com tanta austeridade e frieza. Se acaso alguém discordar da eficácia das histórias infantis em âmbito hospitalar terá de concordar que, no mínimo, uma atividade prazerosa e sadia como esta acaba amenizando a condição de enfermidade acaba dando maiores condições para médicos, enfermeiros, psicólogos, recreacionistas, terapeutas ocupacionais e acompanhantes responderem às necessidades lúdicas da criança hospitalizada. Para os hospitais, tomando a literatura infanto-juvenil, sugiro o uso dos contos de fadas porque, além de estimular a fantasia eles lidam com arquétipos, problemas universais do ser humano. (RIBEIRO, 2002, p.93).

O afastamento da criança do seu meio familiar por motivo de internação hospitalar, naturalmente, surte nestas, os sentimentos de medo, tristeza, apatia, baixa auto-estima, etc..., por ser o hospital o oposto do meio que a criança vive. Nesse contexto, o trabalho de contação de histórias pode permitir preencher uma lacuna, amenizando suas angústias, além de propiciar relevante efeito terapêutico físico e mental.

Para a criança muitos de seus sentimentos são tão confusos, perturbadores e dolorosos que é difícil administrá-los, trazendo assim infelicidade. Essa energia fica represada e acaba vazando na forma de sintomas físicos, neuróticos ou comportamentais como crueldade, comportamento agressivo, dificuldade de aprendizado, falta de concentração, ansiedade, etc.

Apesar das crianças precisarem de ajuda para lidar com seus sentimentos estas não conseguem falar com naturalidade e facilidade sobre seus problemas, isto porque não estão habituadas à linguagem cotidiana, para elas esta não é a linguagem do sentimento, elas se expressam melhor através da metáfora, da imagem como em histórias e sonhos.

A comunicação por meio da contação de histórias fala as crianças mais profundamente do que a linguagem literal, a linguagem do pensamento; dramatizar com fantoches representando aquilo que se quer dizer ou mesmo através do desenho é fazer uso da linguagem imaginativa, essa é naturalmente a linguagem infantil.

Nas histórias, o mal está tão presente quanto o bem, existe inúmeros obstáculos a serem vencidos, aparecendo escolhas de solução que permitem que a vitória aconteça. Todos esses aspectos fazem parte da vida psíquica da criança, formalizando o processo de identificação.

Aquele herói que luta e vence mostra a possibilidade de não desistir diante dos problemas da vida real e ter forças para superar todos os desafios. Os seres que figuram o mal significam o aspecto instintivo do homem e, ao serem subjugados, criam a possibilidade de equilíbrio.

3 O QUE MAIS OS CONTOS DE FADAS PODEM TRAZER SOBRE A PARTICULARIDADE INFANTIL.

Neste trecho nós abordaremos sobre os assuntos que estão sendo narrados em algumas histórias e a particularidade que existe entre estes assuntos e universo infantil.

Medo, como um dos contos de Grimm traduzido por Ana Maria Machado “O homem que saiu em busca do medo”. Este conto mostra a história de um rapaz que quer aprender a se arrepiar e para isso ele enfrenta monstros, fantasmas e mortos, mas não consegue se arrepiar. Depois das mais tenebrosas e incansáveis tentativas ele descobre que só sente arrepios se alguém lhe fizer cócegas... (mostrando que o que pode provocar medo é diferente para cada um, às vezes o que pode nos causar muito medo, nem faça cócegas em outra pessoa).

Os medos estão presentes no nosso dia-a-dia, medo de escuro, medo de injeção, medo de cachorro, lobisomem, de ladrão, de dentista, de vampiros, de levar cascudo, de ser reprovado na escola. Temores reais ou imaginários, relacionados à escola, temor dos mais fortes do grupo e do próprio ridículo...

Medos que todos convivemos e sentimos, uns numa intensidade outros noutra, um de um jeito outro de outro, o importante é aprendermos a enfrentar, a desviar, superar, a substituir, com os quais nós aprendemos a conviver e a lidar durante a vida. Neste conto a muito que trabalhar com as crianças, ao ouvi-las podemos identificar os seus medos e trabalhar com ela para que possa aprender a se desviar dele ou substituí-lo por outro que possa lidar.

3.1 As dificuldades de ser criança.

A narrativa Peter Pan, escrita por James Barrie em 1904, e adaptado para a versão infantil em 1911, nos deixa uma mensagem muito bonita sobre o universo infantil sendo invadido pelos anseios dos adultos. Conta a história que Peter Pan ao nascer escuta os seus pais conversando sobre como ele seria quando crescesse, neste momento ele decide que não quer crescer e ser um adulto, decide que quer ser para sempre uma criança. Este momento da história nos faz refletir sobre o quanto as expectativas do adulto com relação à criança pode assustá-la ou até mesmo afastá-la a ponto de recusar a idéia de um dia também se tornar um adulto. É muito difícil viver a sombra das expectativas do outro e nunca poder ser quem realmente quer ser.

No conto também percebemos como Peter Pan se preocupa com que as crianças acreditem no mundo da fantasia, ou seja, nas fadas, que elas não percam a sua essência de imaginar que podem estar em outros lugares quando ainda continua no mesmo lugar, é importante para as crianças explorarem esse campo da imaginação, e conseguirem enfrentar as dificuldades que aparecerão durante a vida.

Acreditar em fadas, papai Noel, super-heróis é muito significante para os pequenos, pois ter um aliado quando se enfrenta um problema é muito gratificante, nós, nos sentimos mais fortes e encorajados.

Mesmo quando crescemos continuamos com a necessidade de acreditar que existem forças superiores a nós que nos ajudam a resolver os nossos problemas, então porque não deixar que as crianças façam também o uso desta necessidade que é essencialmente humana.

3.2 Carência

A carência também é assunto que aparece em vários contos, porém me prenderei a um de Andersen, que me comoveu muito ao ler, e também me fez refletir sobre a injustiça social cruel e desumana a qual algumas crianças podem estar enfrentando cotidianamente.

O conto “A menina dos Fósforos” fala de uma menina que tremendo de frio, de fome, numa terrível e gélida noite de Ano Novo europeu, vendo as luzes, a comida, as árvores alegres de Natal em todas as casas por onde vai passando, a menina só tem uma caixa de fósforos para vender... E, querendo ver melhor aquele mundo, querendo se aquecer mais, vai acendendo um a um de seus fósforos, e cada pequena chama a faz imaginar coisas bonitas, boas, iluminadas, maravilhosas, até que recebe o abraço de uma avó, já morta, que a leva para as alturas, para junto de Deus, onde não há fome, frio e nem medo.

Esta narrativa nos faz pensar no que realmente uma criança precisa para crescer de maneira digna e ser feliz. Proteção, amor, comida, agasalho, teto, são fatores indispensáveis para que isto ocorra.

Podemos também utilizar esta narrativa para trabalharmos com as nossas crianças as suas carências, as suas ansiedades, os seus direitos enquanto cidadãos.

3.3 Autodescobertas

Este é um assunto bem exposto na narrativa “O Patinho Feio” de Andersen (que tem muito de autobiográfico). Nós podemos enxergar neste conto a busca pela descoberta da própria identidade, o que é fundamental para o crescimento. O conto narra a história de um patinho que desde seu nascimento foi maltratado, ridicularizado, bicado (por outros patos e galinhas) por ser feio... Rejeitado pela mãe, pelos irmãos, foge e continua sendo martirizado e desprezado, por sua feiúra, por todos que o encontra em sua triste e melancólica caminhada... E foge cada vez mais assustado, nunca compreendido. Fugindo de novo, atravessa um frio gélido e finalmente se aproxima duma lagoa plácida, onde deslizam belos cisnes, que não só o reconhecem de imediato, como um dos seus, e mais ainda o elegem o mais belo e famoso dentre eles!

Contar esta história para as crianças é possibilitar o seu desenvolvimento na busca de sua identidade, identificando as semelhanças e diferenças entre as pessoas, mesmo que inconscientemente, fazendo descobertas a respeito de si mesmas, como por exemplo, se ela se parece mais com seu pai ou com sua mãe, se seus cabelos são da mesma cor que o do seu pai etc...

... O poder de se encontrar, se conhecer, depois de ter sido o patinho feio, que só se percebe cisne após descobrir sua identidade (o que significa percorrer uma trajetória longa, difícil e muito sofrida...) aí a belezura é total!!! É então que nos sentimos capazes de enfrentar o dragão, o gigante, o ogro, o monstro, ou o nome que tenha no nosso dia-a-dia, enfim, aquele que pensamos ser maior ou desconhecido, ou inatingível, ou cercado de forças inabaláveis e poderosas... (ABRAMOVICH, 1997, p.135).

4.4 Perdas e buscas

Os contos de fadas também falam de perdas, buscas, abandonos, de esquecimentos, de quem um dia foi significativo, marcante, mas eu, por várias razões (até mesmo a morte já não toca ou comove...). Andersen conta isso linda, triste e poeticamente em “O pinheirinho”, uma bela árvore abandonada, relegada, após ter vivido uma experiência inesquecível numa noite de Natal, e que a cada novo dia espera um novo momento belo e cálido, um novo aconchego, uma nova audição de histórias emocionantes a sua volta, que nunca acontecem... Ao ser levado para fora da casa, imagina um recomeço de vida. Mas é cortado, transformado em lenha, e gemendo, gemendo... Vai sendo queimado... (como permitimos que aconteça com nossos avós, nossos sábios, nossos antigos ídolos), pp. 135-136, Abramovich, gostosuras e bobices.

Este conto nos dá a possibilidade de trabalharmos com as crianças as mudanças de fases da vida aceitando uma nova etapa, as perdas, falando para elas que isso faz parte do seu crescimento e desenvolvimento humano.

3.5 Amor

Hans Christian Andersen (1805-1875) de nacionalidade dinamarquesa, seu pai era sapateiro e sua mãe lavadeira. Sua vida foi como seus contos de fadas onde meninos e meninas pobres passam por horríveis humilhações e, como, por magia, chegam a experimentar situações maravilhosas. Obteve fama pelo seu trabalho ainda em vida. O romantismo da época, com seu entusiasmo pelas tradições e lendas populares, provocaram a aparição de amplo repertório de contos, onde o lirismo se alterna com o grotesco, e o encanto oferece faces dramáticas. Pela emoção, fantasia e lirismo de seus contos, Andersen tem encantado várias gerações de crianças e adultos.

Abramovich, 1997, p. 125, “E sobre o amor então, em todas as suas dimensões, sofrimentos, descobertas, encantos, possibilidades, entregas e plenitudes, início e término... Quanto esses contos de fadas nos revelam?”.

Antes de escrever sobre o amor decidimos colocar um pouco sobre a biografia do autor do conto Soldadinho de Chumbo que nos mostrará através de sua história cheia de fantasias, a trajetória de um soldadinho apaixonado. A história conta que o soldadinho de brinquedo, com seu fuzil ao ombro se apaixona por uma pequena, linda e delicada bailarina que mora num castelo de papel (os dois, juntos com os outros brinquedos vivem em um canto da casa...). Depois de ter sido posto num barco de papel pelos meninos, ter navegado quase se afogado, ter sido comido por um peixe, volta para casa, é quando um dos garotos, num gesto, o joga na lareira, onde o soldadinho se derrete olhando a suave bailarina que, num único passo, voa também para dentro da fogueira... O soldadinho então se derreteu, transformando-se numa bolinha de chumbo, e quando, no dia seguinte, a criada tirou as cinzas, viu que a bolinha tinha a forma de um coraçãozinho de chumbo. Da bailarina só restava à lantejoula queimada, preta como carvão.

Meio que fez queimar também o coração do leitor, sentir que a morte do amado pode levar ao suicídio a amada que, dessa relação de encantamento mútuo, feita através de olhares, fica um símbolo forte e indestrutível: a marca do sentimento. (ABRAMOVICH, 1997, p.126).

Nos contos de fadas o que move o mundo não é nem o dinheiro, nem o poder e sim o amor. Um príncipe pode se casar com uma maltrapilha, como Cinderela, ou com uma prisioneira de uma bruxa, como Rapunzel. Mesmo os que orgulhosamente se declaram imunes ao chamado do amor, acabam se apaixonando por criaturas que não pertencem ao gênero humano e se condenando à tristeza, como ocorre com os heróis que entregam seus corações a uma sereia ou a uma mulher de neve. Para ir do “Era uma vez” ao “e viveram felizes para sempre” os enamorados muitas vezes percorrem uma estrada longa e difícil, mas, conforme demonstram histórias como “O príncipe serpente”, não há obstáculos nem perigos que o verdadeiro amor não consiga vencer.

4 IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA PRIMEIRA INFÂNCIA

A leitura na primeira infância é importante para a formação de qualquer criança. Ouvir histórias desde o berçário é o início da aprendizagem de ser um leitor capaz de compreender o mundo através da leitura. No entanto, trabalhar com a literatura infantil com crianças de 0 a 3 anos de idade é um desafio para os educadores de creche. Para que ler e o quer ler para crianças pequenas, são questionamentos freqüentes que devem ser discutidos pelos profissionais da Educação Infantil.

Analisando o contexto histórico da educação de crianças de 0 a 3 anos no Brasil constata-se que a creche tinha uma educação voltada para o cuidado da saúde e do corpo das crianças oriundas de famílias de baixa renda. A creche se caracterizava por uma atuação em horário integral, e a pré-escola, por um funcionamento semelhante ao da escola, em meio período. Enquanto a creche se subordinava e era mantida por órgãos de caráter assistencial, a pré-escola era vinculada ao sistema educacional. Essa divisão hoje não é mais permitida e deve ser feita apenas pela faixa etária. Desse modo nunca pensou em oferecer outro tipo de educação que não a filantrópica a crianças de 0 a 3 anos.

Com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de n.º 9.394/96 a creche torna-se parte da primeira etapa da Educação Básica, como afirma o artigo 29 da LDB: “a educação infantil, primeira etapa da educação básica tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, completando a ação da família e da comunidade”.

Além da legislação que afirma a importância da educação integral o RCNEI (1998) traz as seguintes considerações sobre a importância da linguagem na Educação Infantil:

A Educação Infantil, ao promover experiências significativas de aprendizagem da língua, por meio de um trabalho com a linguagem oral e escrita, se constitui em um dos espaços de ampliação das capacidades de comunicação e expressão e de acesso ao mundo letrado pelas crianças. Essa ampliação está relacionada ao desenvolvimento gradativo das capacidades associadas às quatro competências lingüísticas básicas: falar, escutar, ler e escrever.

De acordo com a LDB e o RCNEI a creche deve ter um caráter educativo a fim de desenvolver um trabalho que contemplem as múltiplas linguagens. Diante disso, como é possível não trabalhar com leitura com crianças pequenas? Ao contar histórias para elas estamos possibilitando o desenvolvimento do vocabulário, da capacidade de ouvir, de concentrar-se, de imaginação e de fazer suas próprias leituras das histórias que lhe são contadas.

Tudo o que acontece ao nosso redor, desde a nossa primeira infância, fica registrado em nosso inconsciente. Isto significa que tudo aquilo que vemos, ouvimos e sentimos influi no nosso desenvolvimento e amadurecimento.

Aplicando esta verdade fundamental – que a psicologia ensina – ao nosso assunto, arriscamos afirmar que felizes são aquelas crianças que, desde os primeiros dias de vida, experimentam a presença de livros ao seu redor.

o significado de escutar histórias é tão amplo... É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso de conflitos, das dificuldades, dos impasses, das soluções, que atravessamos e vivemos, de um jeito ou de outro, através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelos personagens de cada história, (cada um a seu modo...), e assim esclarecer melhor os nossos ou encontrar um caminho possível para a resolução deles... (ABRAMOVICH, 2003, p.16).

É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importante como: a tristeza, a raiva, a irritação, o medo, a alegria, o pavor, a impotência, a insegurança e tantas outras mais, e viver profundamente isso tudo que as narrativas provocam e suscitam em quem as ouve ou as lê, com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas faz (ou não) brotar.

Decorre da leitura também a postura crítico-reflexivo que é extremamente relevante na formação cognitiva das crianças, partindo primeiramente do contador, para em seguida, despertar as potencialidades reflexivas dos alunos.

Segundo Zilberman (1985, p.25) “[...] é a partir daí que se pode falar do leitor crítico”. Assim, a criticidade estará presente nas aulas de literatura (futuras), sem que se perca o encanto e o brilho dos contos de fadas e de fábulas.

O caminho para a leitura começa na infância quando as crianças passam a gostar de palavras e de ouvir histórias, além de animarem-se ao contar momentos de sua vida para pessoas próximas.

Mesmo não entendo nada, a criança percebe se os livros existentes em sua casa têm ou não tem valor para os membros da família.

Neste mesmo sentido:

ouvir e ler histórias é também desenvolver todo o potencial crítico da criança. É poder pensar, duvidar, se perguntar, questionar... É se sentir inquieto, cutucado, querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de idéia... É ter vontade de reler ou deixar de lado de uma vez... (ABRAMOVICH, 2003, p.143).

Conforme esclarece Abramovich (2003), apud OTTE e KOVACS, 2009):

O primeiro contato da criança com um texto é feito, em geral, oralmente. É pela voz da mãe e do pai, contando contos de fadas, trechos da Bíblia, história inventadas tendo gente como personagem, narrativas de quando eles eram crianças e tantas, tantas coisas mais... Contadas durante o dia, numa tarde de chuva ou à noite, antes de dormir, preparando para o sono gostoso e reparador, embalado por uma voz amada...

É poder rir, sorrir, gargalhar com as situações vividas pelos personagens, com a idéia do conto ou com o jeito de escrever de um autor e, então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de gozação...

Há relatos de poetas e escritores que descobriram no decorrer de sua vida que seu amor à literatura e, mesmo, muitas de suas poesias e de seus contos tiveram o seu nascedouro já na sua primeira infância.

Da mesma forma, outras pessoas descobriram a origem de sua aversão a toda e qualquer forma de literatura também na infância.

Partindo deste pressuposto, quanto mais cedo à criança tiver contatos com livros e perceber o prazer que a leitura produz, maior é a probabilidade de nela nascer de maneira espontânea, o amor aos livros.

Desde muito cedo, a criança gosta de ouvir a história de sua vida, a mais importante para ela.

Da reunião de histórias do passado, a criança constrói o quadro dela mesma no presente.

Da mesma forma, as histórias inventadas são importantes. A criança precisa saber de coisas que não fazem parte de sua experiência cotidiana. É comum ela ter um amigo imaginário ou atribuir qualidades humanas e sobrenaturais a um brinquedo ou a um animal. As conversas e as histórias desses personagens, unindo o real e o imaginário, dão aos pais muitas dicas sobre seus filhos, pois é nessas horas que as crianças deixam transparecer sentimentos como medo, a insegurança, o ódio, o amor.

Ler histórias para as crianças, sempre, sempre... É suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, e encontrar muitas ideias para solucionar questões – como os personagens fizeram... – é estimular para desenhar, para musicar, para teatralizar, para brincar... Afinal, tudo pode nascer de um texto.

A partir de histórias simples, a criança começa a reconhecer e interpretar sua experiência de vida real.

Citamos, por exemplo, concreto: uma mãe ou um pai estão lendo um livro cativante, quando a criança quer colo e aconchego. Eles tomam o bebê no colo e continuam a leitura, mas deixam a criança participar... usam suas mãozinhas para virar a página do livro. Após algum tempo, a criança adormece nos braços do leitor. Mas continua a sentir a emoção da leitura. Isso acontece muito mais do que imaginamos e toda vez que isso acontece está sendo lançada uma preciosa semente de amor aos livros.

É em momentos como este, quando ouve a voz do pai ou da mãe, que a criança os observa de uma outra maneira que não a usual. No dia a dia os pais estão centrados em outras coisas e automatizados em educar o tempo todo. Na hora das histórias, a fantasia toma conta e acaba fazendo com que os pais representem um outro papel, de quem também sabe brincar e participar daquele mundo de fantasia.

No entanto, é necessário sublinhar: os livros devem ser introduzidos na vida da criança de acordo com o seu nível de compreensão do mundo, de seu nível de elaboração de pensamento e sua experiência anterior. Isso significa que o livro ideal para a criança é aquele em que ela encontra tanto elementos que ela já reconhece, como alguns elementos novos, a partir dos quais ela possa alargar seus horizontes e enriquecer sua experiência de vida.

Além disso, é fundamental que o livro venha sempre associado a momentos de prazer. Para os bebês, o livrinho de plástico na hora do banho, com o qual ele pode bater na água e vê-lo respingar, é muito prazeroso. Para crianças já um pouco maiores, nada é mais aconchegante que uma historinha bem contada, na hora de dormir.

Se os pais tivessem consciência da importância de contar uma história ao pé da cama para seus filhos pequenos, certamente teríamos uma adolescência menos traumatizada. As vozes do pai e da mãe chegam aos ouvidos dos pequenos carregados de afetividade.

Desta afetividade, que se expressa na voz, no olhar, no carinho e no aconchego a criança precisa para minimizar os conflitos que a acompanham em seu crescimento.

Sublinhamos: a fantasia e a magia de uma história encantam e despertam as imaginações da criança e, com isso, criam condições favoráveis para o desenvolvimento duma mente criativa e inventiva.

Outrossim, como afirma Ramos (2003), a leitura oferece a possibilidade de se ver os dados do mundo com mais amplitude. Compreender a leitura de um texto é uma das tarefas mais significantes para a escola, professores e alunos, pois leva o individuo a conhecer a si e aos outros, preparando-se para sua formação humana.

Contar histórias é uma arte. Muitas pessoas tem um dom especial para esta tarefa. Mas isso não significa que pessoas sem esse dom excepcional não possam tornar-se bons contadores de histórias. Com algum treinamento e alguns recursos práticos qualquer pessoa é capaz de transmitir com segurança e entusiasmo o conteúdo de uma história para pequenos.

Repetimos: os recursos e os métodos que usamos para contar uma história têm seu valor, mas nada pode substituir a afetividade pessoal que acompanha a história. Citamos a experiência de um pai: a filha com 5 anos de idade fazia questão que o pai a levasse para a cama, a cobrisse e lhe contasse uma história. Em certa fase a menina pediu, durante semanas, a repetição da mesma história que ela escutava de olhos fechados e adormecia. Um dia, o pai gravou a história, levou a menina para a cama, a cobriu, ligou o gravador e retirou-se. No dia seguinte perguntou: “Gostaste da história ontem à noite?” A menina responde: “Não foi bom, porque quem contou a história foi o gravador.”

Isso significa que a história contada de viva voz é história humanizada. Em tempos de desumanidade, precisamos refletir sobre essa função da narrativa, projeta aos pequenos pela afetividade da voz e da presença do narrador.

A escritora francesa Jaqueline Held, em sua obra “O imaginário no poder” nos apresenta muitos exemplos do sofrimento e da angústia que a solidão, pela ausência dos pais, provoca em cada vez mais crianças. Pais superocupados correm o risco de ignorar as necessidades e as carências dos filhos. O mesmo problema acontece com as famílias hipnotizadas por uma televisão, que não permite diálogo.

A presença de livros e o hábito de leitura na família parecem ser condições ambientais favoráveis, como se a leitura fosse transmitida por contágio.

4.1 O contador de histórias: o que ele deve saber.

Nas civilizações antigas era relevante a figura do contador de histórias, que sempre aparece como detentor do conhecimento, aquele que conhece as leis e as tradições da tribo, o que esclarece o obscuro, e rememora o esquecido. A função do contador de histórias é imprescindível, sem ele a cultura fica órfã.

Muitos tentam ocupar o lugar sagrado do contador de histórias. Às vezes adquirindo até sua fama e poder, mas sem conseguir realizar adequadamente sua função por não estar devidamente vinculado à cultura.

A cultura não é algo que se produza numa agência de publicidade. Cultura é uma construção coletiva, arraigada na vida de cada pessoa, em sua fala e seu silêncio, seu olhar e sua imagem.

Durante muitos séculos, através da realidade, a cultura popular se manteve sem pergaminhos ou iluminuras, apenas na memória viva. A história é um instrumento que a humanidade desenvolveu como vínculo para passar informação através do tempo. É por isso que não há exagero nenhum em dizer que quando uma história é bem contada, ela marca profundamente a alma do ouvinte.

Segundo Coelho (1986), “o contador deverá estar consciente de que a história é que é importante, ele é apenas o transmissor, o que conta o que aconteceu e o faz com naturalidade, sem afetação, deixando as palavras fluírem”. (Coelho, 1986, p.50).

Pata tornar um contador de histórias e encantador de ouvintes, deverá se tomar alguns cuidados e seguir alguns passos:

- sentimentos: emoção, paixão e entusiasmo não lhe devem faltar. Um coração cheio de amor e paixão, bons ouvidos, bons olhos, ler muitas histórias.

- voz: a voz é um ingrediente muito importante para o contador de histórias, pois ela materializa não só as sucessivas fases do conto (momentos de alegria, tristeza, euforia, suspense), como também os personagens, uma vez que cada um possui um tipo de voz.

- olhar: o olhar é o elo principal do contador de histórias. É ele que traz as pessoas para dentro do conto. O olhar do contador deve cruzar ao menos uma vez com os olhos de cada um dos ouvintes. Distribuir bem o olhar e não se fixar somente em uma pessoa.

Antigamente, nos tempos de nossos pais e avós, a comunicação era feita muito mais pelo olhar do que pelas palavras. Bastava um olhar mais forte e já se sabia o que eles queriam dizer. Hoje, falta esse ingrediente na comunicação.

Por meio do olhar podemos expressar: súplica, meiguice. Compreensão, orgulho, antipatia, frieza, indiferença, bondade etc...

- Expressão Corporal: o corpo e as mãos ajudam a expressar as idéias, são ingredientes preciosos, porém devem ser usados com moderação. Os gestos devem ser simples, jamais exagerados.

- Improvisação: é fundamental para o contador de histórias. Ter uma boa memória, conhecer e guardar a seqüência do conto. Isso não significa que se deve decorar e reproduzir oralmente a história com todas as letras com que foi grafada no livro.

O contador de histórias não deve se irritar, nem chamar a atenção do ouvinte, ou seja, não se deve parar de contar a história. Nesse instante, entra a sua capacidade de improvisação, poderá recorrer à técnica de narrar com interferência, colocando os ouvintes para participarem da história.

- Credibilidade: o contador de histórias precisa desse ingrediente para fazer com que o público acredite que o que se está contando é verdadeiro. Para isso, a memória e a improvisação ajudarão, pois no caso de haver algum erro, a platéia não deverá perceber. Mantendo o olhar firme, o contador convence o ouvinte e ninguém

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