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Saúde Mental Dos Enfermeiros Que Cuidam De Portadores De Transtornos Mentais Em Um Centro De Atenção Psicossocial

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Por:   •  23/5/2013  •  9.584 Palavras (39 Páginas)  •  772 Visualizações

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1. INTRODUÇÃO

1.1. SOBRE O TEMA EM ESTUDO

O discurso religioso predominante à época do Brasil Colonial e Imperial, ressaltava que o cuidador não tinha como preocupação curar o louco, mas garantir sua própria salvação espiritual, já que o cuidado estava relacionado à caridade (uma forma de expiar pecados e assegurar a salvação eterna). Segundo Ramminger (2005), a partir do século XIX, é o discurso médico que detém a verdade sobre a loucura, inaugurando o trabalho especializado no cuidado com o que passou a ser denominado “doença mental”. Finalmente, outro discurso, identificado como Reforma Psiquiátrica, começou a disputar com o discurso médico, a legitimidade nos jogos de verdade a respeito da loucura, do louco e seu cuidado, propondo um deslocamento do saber médico psiquiátrico para a interdisciplinaridade, da noção de doença para a de saúde, dos muros dos hospitais psiquiátricos para a circulação pela cidade através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), instituições criadas com o compromisso de acolher os usuários com transtornos mentais, oferecendo atendimento médico e psicológico, apoiando-os nas suas iniciativas de busca de autonomia (BRASIL, 2004).

Atualmente, dentro do campo da Saúde Mental, é preconizada a valorização do trabalhador de saúde mental na produção do ato de cuidar, onde se atribui ao enfermeiro características ímpares como o cuidado, o conhecimento, a atenção minuciosa, a compreensão, o medo e o amor pela profissão. Dessa maneira, parafraseando Bianchini (1999), o trabalho de enfermagem em saúde mental pode ser considerado desgastante “devido às situações adversas como o sofrimento decorrente do adoecimento, a proximidade da morte de clientes e o desempenho de atividades consideradas repulsivas, desgastantes e atemorizadoras”. Cabe ao profissional enfermeiro cuidar de indivíduos adoecidos e promover o seu bem-estar geral.

O ser humano em suas atividades diárias realiza, constantemente, trabalho. Ferreira (2006) conceitua trabalho como sendo “a aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim”, e é por meio dele que sobrevivemos, e nos tornamos seres participantes e essenciais para a sociedade. O trabalho é um dos elementos que mais interferem nas condições e qualidade de vida do homem e, portanto, na sua saúde (CASSIOLATO, 2003).

Conforme historia Benevides (2002), a palavra estresse, derivada do latim, foi empregada popularmente no século XVII significando fadiga, cansaço. A partir dos séculos XVIII e XIX, o termo estresse aparece relacionado com o conceito de força, esforço e tensão. Na medicina e na psicologia, estresse aparece tanto para denominar condições externas, ou uma força imposta ao organismo, como para fazer referência às respostas desse mesmo organismo ante estas forças. Na verdade, o estresse diz respeito a um mecanismo que resulta da interação indivíduo-ambiente e que tem como principal função promover, no indivíduo, recursos adaptativos. O estresse é definido por Hans Selye (1965), neurofisiologista austríaco, como sendo uma “síndrome específica, constituída por todas as alterações não-específicas produzidas num sistema biológico” identificado, portanto, pelas suas várias manifestações fisiológicas, mas sem causa definida. É justamente esse caráter inespecífico presente na definição do estresse que explica a grande difusão do conceito, que pode, por esta razão, ser empregado nas mais variadas circunstâncias. A explicação para a ocorrência do estado de estresse é biológica e diz respeito à necessidade de adaptação ou ajustamento do organismo frente às pressões do meio com as quais este se depara. Para Selye (1965), sem estresse não há adaptação e sem adaptação não há vida. Portanto, estresse é um processo adaptativo e natural que ocorre em todas as formas de vida, pois viver implica num esforço de adaptação e é justamente esse esforço o que chamamos de estresse. Dessa forma, o estresse é compreendido como reação ante as demandas sociopsicológicas e aparece “como um estado intermediário entre a saúde e a doença, passa a ser um possível indicador das conseqüências do trabalho sobre os trabalhadores, que podem estar sofrendo em decorrência das condições e características de sua atividade, sem necessariamente apresentar nenhum quadro patológico definido” (CODO, SORATTO E VASQUES-MENEZES, 2004).

Assim, o envolvimento dos enfermeiros que trabalham em atividades especificas de saúde mental acaba sendo muito intenso a ponto dos mesmos não identificarem suas vulnerabilidades e sua saúde mental ou quando o fazem, deixam-nas de lado e, com isso, tornam-se mais expostos aos efeitos negativos do estresse e de outros agravantes que podem gerar neles problemas de saúde mental (BRITTO, 2006). Nesse contexto, é que propomos analisar quais as repercussões das experiências vivenciadas pelos enfermeiros do CAPS ao cuidar de pacientes portadores de transtornos mentais no seu fazer cotidiano.

1.2. JUSTIFICATIVA

O estresse é dos males que atingem a população em geral, sendo altamente incapacitante, e interferindo de modo decisivo e intenso na vida pessoal, social, econômica e profissional do indivíduo, prejudicando a produtividade e a qualidade da assistência e, é uma das maiores causas de afastamento do trabalho e uma das causas do adoecimento mental dos enfermeiros de cuidam de portadores de transtornos psíquicos (COLEMAN, 1992).

Ressalta-se que a saúde mental dos enfermeiros que cuidam de portadores de transtornos mentais não é um tema muito pesquisado nem na área de saúde mental (que tem priorizado as discussões em torno das mudanças no cuidado do louco e no entendimento da loucura), nem no campo da saúde do trabalhador (que tem acumulado estudos em organizações privadas e industriais).

Além do problema de ser um tema pouco pesquisado, existe o fato de que se encontra na literatura, sobretudo nacional, uma escassez de estudos que abordam a saúde do enfermeiro que atua em assistência à saúde mental. Segundo Ramminger (2005), os estudos sobre a relação entre saúde/adoecimento e trabalho, tendem a estar ligados ao que é visível, ou seja, ao que pode ser medido, examinado ou medicado, estabelecendo objetivamente um nexo entre determinada situação de trabalho e suas conseqüências para a saúde do trabalhador (como no caso de uma perda auditiva, por exposição ao ruído, por exemplo). Dificilmente considera a mobilização cognitiva e afetiva do trabalhador, como no caso da introjeção, onde o indivíduo, inconscientemente, procura igualar-se a outro, transferindo para si mesmo vários elementos de sua personalidade,

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