Entre a demonização de Exu e o Dono
Por: LarissaSilva2111 • 22/3/2026 • Artigo • 6.205 Palavras (25 Páginas) • 6 Visualizações
Entre a demonização e o Dono do marafo curador de Santíssimo
(Rio de Janeiro, 1952-1971)
Larissa Luísa da Silva*
RESUMO
O resumo tem o recorte dos anos 1952 a 1971 sobre a demonização do guardião Exu
dentro da religião Umbanda. Tendo em contrapelo a esse movimento, teremos o Exu
Seu Sete da Lira com seu marafo curador no Estado do Rio de Janeiro, no bairro de
Santíssimo. A proposta é analisar o Jornal de Umbanda: Orgão Noticioso e Doutrinario
da União Espiritista de Umbanda, juntamente com os trabalhos apresentados ao 1°
Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, a literatura umbandista de Aluízio
Fontenelle e sua obra mais famosa: Exu. Em uma análise metodológica no periódico e
nos seus Diretores Editoriais, é possível levantar os questionamentos do campo do
poder, que também estão em diálogos diretos com a História Cultural. Exu carrega a
ancestralidade negra e a resistência da matriz africana dentro da religião umbandista,
logo, Umbanda sem Exu não existe.
PALAVRAS-CHAVE: História; Umbanda; Exu; Demonização e Cura
Fundada em 1988, a Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, localizada no
Estado do Rio de Janeiro, no município de Duque de Caxias (baixada Fluminense), é
uma das agremiações mais novas da Liga carioca. De forma inédita na História do
Carnaval carioca, o desfile dessa escola de samba do grupo especial, juntamente com o
seu tema carnavalesco, desmistificou em plena Sapucaí o Orixá Exu, o mensageiro entre
o mundo espiritual e os seres humanos. A escola Grande Rio desfilou no dia 23 de abril
de 2022, sendo a quinta escola de samba a passar pela Apoteose, com o enredo Fala,
Majeté! Sete chaves de Exu, uma homenagem ao Grande Orixá equivocadamente
associado à figura do diabo.
O enredo é a desmistificação de Exu, é falar essa verdade do povo de
Caxias, vendo a grande Rio ser campeã. Caxias é o lugar do Rio de
Janeiro com maior número de terreiros de Candomblé e de Umbanda. A
Grande Rio quando fala da verdade, a verdade não mente!
(ARLINDINHO, 2022).
O Exu Seu Sete da Lira é mencionado na letra do samba-enredo†, assim como é
representado em uma alegoria do carro da escola. Neste contexto, a presente pesquisa
*
Mestre em História Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP; bolsista do
CNPQ; 6540879177078069; larissalusilva@outlook.com
[pic 1]
dialoga justamente com essa fervura e questionamentos presentes na sociedade. O
desfile de carnaval da Escola Grande Rio constitui uma dessas efervescências sociais,
cujas demandas culturais e imagéticas querem falar e ser ouvidas. Exu não é diabo, e
podemos mostrar.
Na Umbanda, o universo do sagrado se transforma (BIRMAN, 1985). Com essas
transformações, os Orixás tornam-se guardiões das legiões e falanges espirituais
enquanto mensageiros espirituais da luz divina. Entretanto, um caboclo como Sete
Encruzilhadas e Pena Verde de linha direta com o Orixá Oxóssi não poderá – e não fará
–
um ato “maléfico”, qualquer que seja. Não por falta de conhecimento ou indiferença
para tais atos, apenas em razão da diferenciação do padrão vibratório e da posição
espiritual em que eles se encontram.
O universo umbandista divide-se em dois, quais sejam: a Umbanda, domínio do
bem; e a Quimbanda, núcleo erroneamente nomeado como mal. Assim, torna-se a
Umbanda magia branca, feita somente por brancos e mestiços que ascenderam um
pouco na sociedade brasileira, em oposição à Quimbanda, magia negra feita por negros
e pelo baixo espiritismo. Podemos afirmar que os Orixás da Umbanda são entidades
brancas, ao passo que Exu seria a única entidade negra conservada ainda como em seu
passado e com traços de tradição africana.
A religião é um espelho da sociedade, a sociedade é espelho dos traços das
mudanças globais. Logo, Exu representaria tudo aquilo que seria atrasado para essa
nova sociedade moderna brasileira: sistema escravocrata, negro, vagabundagem,
vadiagem, bebedeira, euforia... etc., mas Exu também é necessário dentro da Umbanda.
Quem mais entraria nas profundezas da Terra e saberia como é o tal Dito-Cujo?
Umbanda sem Exu não existe, Umbanda sem Exu não há. Diminuído e descartado a
ponto de se eliminar o mal e a figura de Exu, a recusa dos antigos valores afro-
brasileiros tem como finalidade a integração na sociedade de classes.
†
Arlindinho Cruz (filho do sambista Arlindo Cruz), um dos autores do samba-enredo da escola campeã.
2
[pic 2]
Outra dimensão errônea que se dá a Exu é a sua associação à ideia de morte,
herança que alguns estudiosos umbandistas apontam ser de Legba.‡ Nenhum fiel, em sã
consciência, pediria a uma entidade de luz a morte de uma pessoa, tendo em vista que
poderia ser até punido por um ato como este; logo, vai em busca de outra entidade, vai
em busca de Exu, por este supostamente fazer tudo e qualquer coisa mediante certas
oferendas e donativos para realizar o ato pedido. Essa proximidade com a morte que
Exu traria não se reduz às práticas de demanda; Exu, além de carregar a qualidade de
matador, representa simbolicamente a divisão das trevas. Ele foi o fundamento teórico e
culpado perfeito de crimes e mazelas que se realizam na face da terra. Basta recorrer aos
periódicos para perceber até que ponto esse Deus Africano foi associado à ideia de
criminalidade.
No dia 15 de novembro de 1908, aos 18 anos, Zélio Fernandino de Moraes –
mais conhecido como pai§ da Umbanda –, cavalo** e incorporado em seu Caboclo das
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