O Fanatismo Como Patologia e a Maçonaria
Por: Rômulo Augusto • 27/4/2026 • Artigo • 1.719 Palavras (7 Páginas) • 7 Visualizações
A história da humanidade está manchada pelo sangue e pela dor daqueles
que foram vítimas da mais perigosa das distorções do sentimento
religioso: o fanatismo. Como observou Voltaire em seu Dicionário
Filosófico, ”o fanatismo é uma doença epidêmica, para a qual
o único remédio é o espírito filosófico”[1]. Essa definição, cunhada
no século XVIII, permanece atual e encontra eco em episódios terríveis
do mundo contemporâneo, provando que o fanatismo não é uma
chaga do passado, mas uma ferida ainda aberta no tecido social, capaz
de se reinventar sob diferentes bandeiras e em diferentes tempos.
Em janeiro de 2015, homens fortemente armados invadiram a redação
de um jornal satírico em Paris e assassinaram doze pessoas a tiros,
em retaliação a charges que satirizavam figuras religiosas. No ano seguinte,
em junho de 2016, uma casa noturna na Flórida foi palco do
massacre de 49 pessoas, em um ataque direcionado contra a comunidade
LGBT por aqueles que consideravam sua fé um instrumento
de condenação. No Brasil, essa mesma intolerância se manifesta de
forma persistente e estrutural contra as religiões de matriz africana:
dados recentes revelam que 76% dos terreiros já sofreram algum tipo
de violência, e 74% foram ameaçados, depredados ou destruídos [2].
Em outubro de 2025, um terreiro em Aracaju foi invadido e teve objetos
sagrados profanados [3]. Em novembro do mesmo ano, em São
Paulo, um simples desenho infantil representando a orixá Iansã levou
policiais armados a intimidar a direção de uma escola pública, depois
que um pai de aluna se sentiu incomodado com a atividade [4]. Em
todas essas manifestações, separadas por continentes e credos, o padrão
se repete: a adesão cega ao dogma, a desumanização do outro
e a violência como instrumento de imposição da própria verdade, revelando
o quão perigoso pode ser o fanatismo, em qualquer tempo
ou lugar.
Se o fanatismo é essa doença que atravessa séculos e credos,
impõe-se perguntar: que terreno fértil encontra na alma humana para
prosperar? E, mais inquietante ainda, que interesses se aproveitam
dessa cegueira para converter a fé em instrumento de dominação?
São essas as questões que nos conduzem às páginas seguintes, não
com a pretensão de respostas definitivas, mas na esperança de que,
compreendendo as raízes do mal, possamos vislumbrar, na razão e
na tolerância professadas pela Maçonaria, algum antídoto contra sua
persistência.
Para compreender o fanatismo, é preciso antes investigar o terreno
fértil que encontra na psicologia humana. O filósofo Eric Hoffer, em
sua obra clássica O Verdadeiro Crente (1951), oferece uma análise
precisa desse fenômeno. Hoffer demonstra que os movimentos de
massa atraem sobretudo os descontentes, os frustrados, aqueles que
se sentem insignificantes em sua existência individual. Para esses, a
adesão a uma causa coletiva oferece algo extraordinário: a possibilidade
de fugir de um eu considerado inadequado ou fracassado. ”Os
desajustados permanentes só podem achar a salvação numa separação
completa do ego; e geralmente acham-na perdendo-se na compacta
coletividade de um movimento de massas”. O fanático não é
apenas alguém que crê com intensidade; é alguém que precisa desesperadamente
crer para preencher um vazio interior, para dar sentido
a uma existência que, sem a causa, lhe pareceria vazia e miserável.
A força da fé manifesta-se não em mover montanhas, mas em não
ver as montanhas a serem movidas, o fanático desenvolve uma notável
capacidade de negar toda e qualquer realidade que contrarie sua
doutrina [5]. A psicanálise oferece uma camada adicional de compreensão.
Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Sigmund Freud
já apontava para a ”inclinação humana para a ruindade, a agressividade
e a destrutividade”que habita o inconsciente de cada um. Estudos
contemporâneos, como o de Oliveira e Ferrari (2020), retomam
essa perspectiva para analisar o fanatismo religioso como expressão
do ímpeto de morte, uma força destrutiva que, quando não direcionada
contra si mesmo, volta-se contra o outro. Segundo os autores,
”as religiões, como todas as construções humanas, são marcadas pelas
ambiguidades e contradições próprias do ser humano”, o que explica
como ”a agressividade e a destrutividade podem estar mescladas
com os mais nobres ideais da fé”[6]. O fanatismo seria, então,
uma forma de canalizar institucionalmente
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