A Sociabilidades e Práticas Cotidianas de Pessoas em Situação de Rua
Por: Matheus Alexandre • 28/7/2026 • Projeto de pesquisa • 5.258 Palavras (22 Páginas) • 9 Visualizações
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE
CENTRO DE HUMANIDADES
COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
OFICINA DE PESQUISA
PROJETO DE MESTRADO: SOCIABILIDADES E PRÁTICAS COTIDIANAS DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA EM CAMPINA GRANDE-PB
MATHEUS ROCHA ALEXANDRE
CAMPINA GRANDE 2026
Resumo
Este projeto investiga as formas de sociabilidade e a produção da vida cotidiana da população em situação de rua em diferentes territórios urbanos de Campina Grande-PB, dando continuidade à pesquisa desenvolvida no Trabalho de Conclusão de Curso do autor. Enquanto o estudo anterior concentrou-se nos processos de exclusão social e invisibilização observados principalmente nas Praças da Bandeira e Clementino Procópio, a presente pesquisa amplia tanto o campo empírico quanto a perspectiva analítica, deslocando o foco para as relações sociais, as práticas cotidianas e as territorialidades construídas por esses sujeitos na cidade. A investigação será realizada nas Praças da Bandeira e Clementino Procópio, no Terminal Rodoviário Cristiano Lauritzen, no entorno do viaduto localizado na região do centro de campina e em outras praças circunvizinhas, permitindo compreender comparativamente como diferentes configurações urbanas influenciam as formas de circulação, permanência, pertencimento e construção das redes de sociabilidade da população em situação de rua. Parte-se do pressuposto de que a rua não constitui apenas um espaço de vulnerabilidade, mas também um território onde se produzem relações sociais, estratégias cotidianas, vínculos de solidariedade, conflitos e modos particulares de viver na cidade. A pesquisa adota abordagem qualitativa, fundamentada no método etnográfico, utilizando observação direta sistemática, entrevistas semiestruturadas, diário de campo e análise documental. O referencial teórico articula contribuições da Antropologia Urbana e da Sociologia Urbana, dialogando principalmente com José Guilherme Magnani, Georg Simmel, Michel de Certeau, Henri Lefebvre, Roberto DaMatta, Clifford Geertz, Erving Goffman, Robert Castel e Fernando Braga da Costa. Espera-se contribuir para a compreensão das formas pelas quais pessoas em situação de rua produzem sua vida cotidiana em diferentes territórios urbanos, ampliando os debates sobre cidade, sociabilidades, territorialidades e políticas públicas voltadas à população em situação de rua em cidades médias brasileiras.
Introdução
A presença de pessoas em situação de rua nos espaços públicos de Campina Grande-PB, especialmente em praças, terminais rodoviários e áreas de intensa circulação, constitui um fenômeno social que ultrapassa interpretações centradas exclusivamente na pobreza ou na exclusão social. Esses espaços, historicamente concebidos como locais de encontro, circulação, comércio, lazer e convivência, tornam-se também territórios onde diferentes formas de vida se entrecruzam, produzindo relações de conflito, solidariedade, negociação e pertencimento. Para a população em situação de rua, esses ambientes deixam de ser apenas espaços de passagem e passam a compor o cotidiano, constituindo lugares de moradia, trabalho, circulação, sociabilidade e construção de identidades.
Embora a experiência da rua seja marcada por processos de estigmatização, precarização das condições de vida e fragilização dos vínculos sociais, ela também envolve a criação de redes de apoio, estratégias de permanência, formas próprias de organização cotidiana e diferentes maneiras de ocupar e significar a cidade. Nesse sentido, compreender a população em situação de rua implica reconhecer que esses sujeitos não apenas sofrem os efeitos da exclusão, mas também produzem relações sociais, estabelecem vínculos, constroem territórios de convivência e desenvolvem práticas que tornam possível a reprodução da vida cotidiana em contextos de profunda vulnerabilidade.
É nesse contexto que emerge o problema desta pesquisa: compreender como pessoas em situação de rua constroem e mantêm redes de sociabilidade em diferentes territórios urbanos de Campina Grande-PB e de que maneira as características desses espaços, os processos de estigmatização, a exclusão social e as relações estabelecidas com políticas públicas, instituições religiosas e organizações da sociedade civil influenciam essas formas de interação, permanência e pertencimento à cidade. Mais do que investigar a exclusão como um fim em si mesmo, o estudo busca compreender como a vida cotidiana é produzida nesses espaços e como diferentes configurações urbanas condicionam distintas formas de sociabilidade.
Portanto, neste estudo, esses processos serão observados em diferentes territórios da cidade, contemplando as Praças da Bandeira e Clementino Procópio, o Terminal Rodoviário Cristiano Lauritzen, o entorno do viaduto situado no centro da cidade e outras praças circunvizinhas. A pesquisa propõe, portanto, ampliar o campo empírico desenvolvido no Trabalho de Conclusão de Curso, incorporando diferentes espaços urbanos de Campina Grande, como novas praças, terminais rodoviários e áreas periféricas. Essa ampliação não representa apenas um aumento do campo de observação, mas possibilita investigar comparativamente como diferentes configurações urbanas influenciam a constituição das redes de sociabilidade, das práticas cotidianas e das formas de permanência da população em situação de rua.
Parte-se da hipótese de que as redes de sociabilidade e as formas de produção da vida cotidiana da população em situação de rua não se constituem de maneira homogênea na cidade, mas variam conforme as características sociais, econômicas, institucionais e espaciais dos diferentes territórios urbanos. Pressupõe-se que espaços como praças centrais, terminais rodoviários, áreas sob viadutos e outras localidades apresentam dinâmicas próprias de circulação de pessoas, oferta de serviços públicos, presença de instituições religiosas, organizações da sociedade civil, atividades comerciais e diferentes formas de controle e vigilância do espaço público, influenciando diretamente as possibilidades de interação, permanência e construção de vínculos sociais.
Essa hipótese orienta a proposta comparativa da pesquisa, permitindo investigar de que maneira diferentes configurações urbanas favorecem ou restringem determinadas formas de sociabilidade, contribuindo para compreender a população em situação de rua como sujeitos que produzem relações sociais e constroem modos de vida diversos no espaço urbano.
Do ponto de vista teórico, a pesquisa insere-se nos debates sobre Antropologia Urbana, produção social do espaço, sociabilidades e cotidiano. A perspectiva de Erving Goffman (1988) permite compreender como o estigma produz processos de desqualificação social que atravessam as relações estabelecidas entre a população em situação de rua e os demais atores urbanos. Robert Castel (1998), por sua vez, demonstra que a exclusão deve ser entendida como um processo de fragilização dos vínculos sociais, constituindo o contexto no qual essas experiências se desenvolvem. Esses autores permitem compreender as condições estruturais que atravessam a vida na rua, sem reduzir os sujeitos à condição de vítimas passivas.
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