Plano de Aula
Por: vitoriahipolit • 8/9/2026 • Projeto de pesquisa • 1.391 Palavras (6 Páginas) • 4 Visualizações
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XXV EREGEO – SE: Encontro Regional dos Estudantes de Geografia do Sudeste
UFJF - JUIZ DE FORA - MG
Eixo de Trabalho: 3. Geografia Cultural e Histórica: memória, território e identidade
DISCURSOS E MORALIDADES: UMA ANÁLISE TEXTUAL DA ZONA BOÊMIA DE JUIZ DE FORA NO SÉCULO XX
Vitória Maria Hipólito Pires
Mestranda em Geografia, UFJF
vitoriahipolito20@gmail.com
RESUMO:
O presente trabalho apresenta os procedimentos metodológicos de uma pesquisa de mestrado[1] ainda em desenvolvimento, cujo objetivo é analisar os processos de (des)territorialização da prostituição em Juiz de Fora no século XX. Para isso, utiliza-se o software IRaMuTeQ para identificar recorrências e padrões lexicais na interpretação das fontes. Articulada à Análise de Conteúdo e do Discurso, compreende-se como os discursos normativos participaram da produção, regulação e (des)territorialização dos territórios da prostituição, evidenciando mecanismos de controle que contribuíram para a constituição de territórios moralmente estigmatizados .
PALAVRAS-CHAVE: Geografia Histórica; Prostituição; Espaço Urbano; Moralidades; (Des)territorialização.
- INTRODUÇÃO
Para compreender os processos e formas espaciais contemporâneas que moldam o cotidiano e as vivências urbanas, torna-se necessário investigarmos como essas formas se estabeleceram em um tempo pretérito. Nesse sentido, a Geografia Histórica se apresenta como um aporte teórico-metodológico fundamental, ao permitir a leitura das permanências, rupturas e transformações espaciais ao longo do tempo.
Entretanto, embora o campo possibilite a compreensão de uma realidade pretérita, também evidencia limitações quando se trata de sujeitos cujas vozes foram silenciadas nos registros oficiais em favor de discursos morais. Nesse sentido, torna-se necessária uma análise crítica do corpus documental, conforme afirma Carneiro (2018). Ou seja, torna-se necessário, indagar, desvendar e compreender as motivações e discursos que impulsionam a produção dessa fonte. Sob essa perspectiva, um dos caminhos possíveis para romper com a “tirania dos arquivos” consiste em observar como o passado permanece inscrito nos corpos e nas práticas cotidianas das mulheres trabalhadoras sexuais. Essa abordagem permite apreender as permanências e ressignificações de processos históricos no presente, por meio do método regressivo-progressivo aplicado à pesquisa urbana, conforme proposto por Frehse (2015).
Por meio desse método, torna-se possível compreender que a história não se encontra apenas nos arquivos, mas também inscrita nos corpos dos sujeitos. No caso da prostituição, a análise das práticas, interações e comportamentos que persistem no cotidiano das trabalhadoras sexuais permite identificar aquilo que Frehse (2015) denomina de “regras de comportamento corporal”. Trata-se de normas socialmente construídas e historicamente situadas que orientam formas de agir, perceber e ocupar o espaço, materializando-se em contextos geográficos específicos. Nesse sentido, a utilização da geografia histórica para compreender os processos de (des)territorialização da prostituição em Juiz de Fora possibilita analisar como tais normas foram constituídas e reproduzidas ao longo do tempo. A partir de uma leitura pautada pelas geografias das moralidades cotidianas, torna-se possível compreender de que maneira essas práticas se configuram, na contemporaneidade, como práticas inertes ou rugosidades urbanas (Santos, 2002).
CAMINHOS METODOLÓGICOS
O software IRaMuTeQ possibilita diferentes tipos de análise de dados textuais permitindo ao pesquisador examinar grandes volumes de texto de forma sistemática e organizada (Camargo e Justo, 2013). O processo de análise de dados no software compreende três etapas fundamentais: a preparação e codificação do corpus, o processamento dos dados por meio da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e a posterior interpretação das classes. Na presente pesquisa, a preparação do texto inicial consistiu na seleção e transcrição do material documental coletado. No total, foram levantadas 195 reportagens, sendo 106 oriundas da Hemeroteca Digital Brasileira e 89 obtidas no Arquivo Histórico. Desse montante, 142 reportagens foram integralmente transcritas e consideradas aptas para compor o corpus de análise final.
A fim de viabilizar as primeiras aproximações analíticas, o corpus foi delimitado a partir do mapeamento de palavras-chave e critérios de busca específicos. Nesse sentido, foi realizada uma primeira categoria para resultados preliminares, focando na espacialização da prostitutuição na Zona Boêmia da cidade. Essa categoria engloba as reportagens que trazem explicitamente o termo ou que fazem referência direta ao espaço de sua localização, incluindo as nomenclaturas das vias que a compunham, tais como: Rua_Maria_Perpétua, Henrique_Vaz, Vitorino_Braga, Avenida_Surerus e 31_de_Maio.
RESULTADO PRELIMINAR: ZONA BOÊMIA
A Classificação Hierárquica Descendente (CHD) convergiu na elaboração do dendograma de classes (Figura 1). Esta representação gráfica ilustra não apenas a partição dos segmentos textuais, mas também o nível de afinidade e conexão existente entre os agrupamentos. A organização lexical das classes geradas pelo IRaMuTeQ revela que o discurso da imprensa sobre a prostituição em Juiz de Fora se estruturou em duas grandes matrizes de representação social, evidenciadas na primeira divisão do dendograma (Figura 1) e detalhadas em suas frequências (Figuras 2).
FIGURA 1: DENDOGRAMA DAS CLASSES
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Fonte: Elaborado pela autora (2026).
A primeira grande matriz discursiva, que agrega as Classes 1 e 2, está intimamente ligada à dimensão socioespacial do ordenamento e à moralidade urbana. A Classe 2 (16,7%), mapeia as territorialidades do comércio do sexo na malha urbana central e nos bairros periféricos. O destaque estatístico de termos como hotel, pensão, adjacência, proximidade e o verbo obrigar reflete a preocupação com as fronteiras espaciais e morais, podendo indicar processos de (des)territorialização. Conectada a ela, a Classe 1 (34,7%), constitui o núcleo mais expressivo do corpus. Esta classe expõe o papel da vizinhança na regulação do espaço público por meio de vocábulos de forte apelo institucional, como autoridade, providência, reclamação, morador e família, explicitando as demandas coletivas direcionadas ao poder público e à polícia para a contenção do "problema" social na cidade.
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