Teóricas Sobre A Implicação Das Figuras Parentais
Por: Tuca.Form • 9/3/2026 • Artigo • 6.314 Palavras (26 Páginas) • 6 Visualizações
FORMULAÇÕES TEÓRICAS SOBRE A IMPLICAÇÃO DAS FIGURAS PARENTAIS NA CONSTRUÇÃO SUBJETIVA DOS FILHOS[1]
ÉLABORATIONS THÉORIQUES SUR L'IMPLICATION DES FIGURES PARENTALES DANS LA CONSTRUCTION SUBJECTIVE DES ENFANTS
Francisco Neto Pereira Pinto[2]
Isnayara Moreno Borges Costa[3]
João de Deus Leite[4]
Thays Lorrany Marques Viana[5]
RESUMO:
Neste artigo, estamos interessados no modo como o campo da psicanálise freudiana e lacaniana concebe a perspectiva de que a família imprime efeitos subjetivos no processo de construção psíquica do sujeito. Estamos interessados, também, em pensar essa perspectiva, considerando os efeitos da contemporaneidade, já que as relações simbólicas e imaginárias da configuração familiar passaram por transformações. Para tanto, buscando dimensionar algumas formulações teóricas no seio do referido campo, procedeu-se a um levantamento bibliográfico a respeito do viés de “família” como instituição social, na configuração de família nuclear, e em relação ao modo como a família, na condição de “figuras parentais”, responsabiliza-se pela estruturação subjetiva dos filhos. Trabalhou-se, do ponto de vista bibliográfico, com formulações freudianas e lacanianas esparsas, bem como de teóricos que a eles se filiam, perseguindo a problematização passível de ser construída a partir da psicanálise, como um saber que interroga certos discursos sobre a família. Os resultados apontam que esse campo do saber põe em circulação outros sentidos sobre família, fazendo convocar uma relação (in)tensa do laço social e da maneira como este acaba por engendrar funções simbólicas e imaginárias outras para aqueles que exercem a função (materna e paterna) de “figuras parentais”.
Palavras-chaves: família; figuras parentais; psicanálise; laço social.
RÉSUMÉ:
Dans cet article, on s’intéresse à la manière dont le champ de la psychanalyse freudienne et lacanienne conçoit la perspective selon laquelle la famille imprime des effets subjectifs sur le processus de construction psychique du sujet. On s’intéresse également à réfléchir dans cette perspective, en considérant les effets de contemporanéité, puisque les relations symboliques et imaginaires de la configuration familiale ont subi des transformations. À cet effet, en cherchant à dimensionner certaines élaborations théoriques dans le domaine visé, une étude bibliographique a été réalisée concernant le biais de “famille” en tant qu'institution sociale, dans la configuration de la famille nucléaire, et la famille dans la condition de “figures parentales” est responsable de la structuration subjective des enfants. D'un point de vue bibliographique, un travail a été mené avec des élaborations freudiennes et lacaniennes discontinues, ainsi qu'avec des théoriciens qui leur sont affiliés, poursuivant la problématisation qui peut être construite à partir de la psychanalyse, comme un savoir qui interroge certains discours sur la famille. Les résultats soulignent que ce champ de connaissance met en circulation d'autres significations sur la famille, convoquant un rapport tendu et intense du lien social et la façon dont il finit par engendrer d'autres fonctions symboliques et imaginaires pour ceux qui exercent la fonction (maternelle et paternelle) de “figures parentales”.
Mots-clés: famille; figures parentales ; psychanalyse; lien social.
1 Introdução
A família[6], seja em que configuração for, é uma das instituições modernas [7]que mais tem ganhado força nos últimos tempos, ao contrário do que vem ocorrendo com outras instituições tradicionais, tais como o Estado e a Religião, para citarmos alguns exemplos. Essas instituições têm, paulatinamente, perdido o prestígio social do qual tradicionalmente eram investidas. Isso porque, conforme teorizam alguns estudiosos que se debruçam sobre as configurações do laço social na contemporaneidade, as transformações da arquitetura dos modos de viver se dão sob o signo da radicalidade em relação a algumas décadas atrás, sobretudo a partir de 1950 (BIRMAN, 2014; FERRY, 2008, 2012; FORBES, 2012; LIPOVETSKY, 2004, 2005). Isso significa dizer, no âmbito do interesse de nosso trabalho, que as instituições políticas e religiosas não guardam a potência que um dia tiveram na condição de fontes geradoras de sentido para a existência das pessoas, a ponto de, inclusive, figurarem como um ente sagrado - sagrado entendido como aquilo pelo qual podemos sacrificar a nossa vida ou, dito de outro modo, pelo qual vale a pena morrer (FERRY, 2012). Nessa direção, o filósofo francês Luc Ferry (2012, p. 16) faz a seguinte indagação:
Ora, no limiar deste século, a constatação - embora ainda devendo ser esclarecida pela reflexão filosófica - é inegável: os motivos tradicionais do sacrifício coletivo foram, pelo menos na Europa, literalmente foram eliminados, quase liquefeitos pela grande destruição dos valores das autoridades tradicionais que tanto marcou o século XX até maio de 68. Quem, nas novas gerações, gostaria de morrer por Deus, pela pátria, ou pela revolução? Ninguém, ou quase.
As reflexões de Ferry (2012) são recepcionadas e legitimadas pelo pensador brasileiro Jorge Forbes, cujas elaborações colocam em relevo a importância da família como grupamento humano no contexto da sociedade brasileira. Nas palavras de Forbes (2023, p. 68-9):
Será que a família vai desaparecer, como pensam alguns? contrariando o bom senso, que sempre pensa mal, a tendência da globalização é de sublinhar um novo valor da família, que não é desmentido pelo grande aumento dos divórcios, se entendermos a lógica. a família será o centro da responsabilidade ética - disse ética, e não moral - da sociedade. família, grosso modo, é do que nos queixamos com mais veemência e paixão. É o grupo do qual mais se espera o reconhecimento que nunca chega e a compreensão impossível de sua dor. É na insatisfação da família que cada um lapida o que lhe falta, a saber, o seu desejo, pois não há desejo sem falta (...) se ontem as famílias estavam a serviço da República, mandando seus filhos para a guerra, por exemplo, hoje a República deverá servir às famílias.
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