O “Nuremberg” E As Origens Do Totalitarismo
Por: lflip • 17/9/2026 • Trabalho acadêmico • 1.094 Palavras (5 Páginas) • 2 Visualizações
FACULDADE CATÓLICA DOM ORIONE
DIREITO - 3° B
FELIPE ALVES DINIZ¹
“NUREMBERG” E AS ORIGENS DO TOTALITARISMO
Atividade apresentada à disciplina de Atividade Integradora como trabalho final no curso de Direito da Faculdade Católica Dom Orione.
Professor: Thiago Spacassassi Nazário
Araguaína - TO
Junho de 2026
Discentes: Felipe Alves Diniz¹
Docente: Thiago Spacassassi Nazário
“NUREMBERG” E AS ORIGENS DO TOTALITARISMO:
RESENHA COMPARATIVA ENTRE CINEMA E FILOSOFIA POLÍTICA
1 INTRODUÇÃO
O filme Nuremberg (2025), de James Vanderbilt, e o livro As Origens do Totalitarismo (1951), de Hannah Arendt, partem de lugares muito diferentes e chegam a uma pergunta surpreendentemente parecida: como o mal totalitário se torna possível dentro de uma sociedade moderna? O filme o faz pela via do drama histórico, acompanhando o psiquiatra americano Douglas Kelley enquanto avalia a sanidade mental dos réus nazistas antes e durante o julgamento de Nuremberg, com atenção especial à relação que desenvolve com Hermann Göring. Arendt o faz pela via da filosofia política, rastreando as condições históricas que tornaram o nazismo e o stalinismo possíveis. Colocados em diálogo, os dois textos se complementam de maneiras que nenhum dos dois alcança sozinho.
2 O FILME
A narrativa de Nuremberg (2025) se constrói em torno de uma descoberta perturbadora: após aplicar baterias de testes psicológicos nos réus, Kelley constata que nenhum deles apresenta qualquer psicopatia clinicamente detectável. Os homens responsáveis pelo maior genocídio da história eram, do ponto de vista da psiquiatria clínica, pessoas mentalmente normais. O filme não recua diante disso. Pelo contrário, faz dessa conclusão a sua tese central.
Göring, o personagem mais desenvolvido da obra, é construído como um homem inteligente e articulado que não demonstra remorso porque, dentro da sua própria lógica, não reconhece erro algum. Ele descreve o apelo de Hitler com uma clareza desconcertante: devolveu aos alemães a sensação de pertencer a algo. Não há vilania performática nessa fala. Há, o que é mais inquietante, coerência.
O filme tem limitações reconhecíveis. O roteiro é didático em alguns momentos, com diálogos que explicam ao espectador o que ele poderia concluir por conta própria. A defesa jurídica dos réus é praticamente ignorada, o que empobrece o debate sobre a legalidade e a legitimidade do tribunal. Ainda assim, a pergunta que a obra coloca permanece válida e incomoda: se os perpetradores eram pessoas normais, o que isso diz sobre a natureza humana e sobre as condições que tornam o horror possível?
3 ARENDT E AS ORIGENS DO TOTALITARISMO
Hannah Arendt escreveu As Origens do Totalitarismo recusando explicações fáceis. O totalitarismo, para ela, não é produto de uma nação maldita nem de um líder excepcionalmente perverso. É um fenômeno moderno com raízes rastreáveis em três movimentos históricos interligados: o antissemitismo como ideologia funcional, o imperialismo como destruidor de normas éticas, e a atomização das massas como condição social que torna as pessoas vulneráveis a movimentos totalitários.
Um dos conceitos mais importantes do livro é o de solidão como condição política. Arendt distingue o indivíduo isolado, que ainda possui a si mesmo como companhia, do indivíduo solitário, que perdeu até a capacidade de pensar de forma autônoma. As massas que sustentaram o nazismo eram compostas, em grande parte, por pessoas nesse segundo estado: sem vínculos de classe, sem comunidades tradicionais, sem pertencimento. O movimento totalitário lhes oferecia identidade, causa e um inimigo comum. Para quem havia perdido tudo isso, essa oferta era irresistível.
O totalitarismo funciona, portanto, não porque produz monstros, mas porque produz engrenagens. Ele opera pela suspensão do julgamento moral individual, distribuindo a responsabilidade pela estrutura burocrática de tal forma que ninguém, em nenhum ponto da cadeia, precisa se reconhecer como autor do horror. Arendt desenvolveria essa ideia com ainda mais precisão em Eichmann em Jerusalém (1963), mas ela já está presente em As Origens do Totalitarismo de forma embrionária.
4 CONVERGÊNCIAS E TENSÕES
A convergência mais importante entre o filme e o livro está exatamente nesse ponto: a normalidade do mal. Kelley chega a essa conclusão pela psiquiatria; Arendt chega a ela pela filosofia política. Os dois trajetos distintos desembocam no mesmo lugar desconfortável. Göring não é um psicopata. É um ser humano que, inserido em determinadas condições históricas e ideológicas, praticou o horror com a mesma naturalidade com que outro, em outras condições, poderia ter praticado o bem.
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