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A SAUDE MENTAL

Por:   •  9/10/2020  •  Dissertação  •  2.476 Palavras (10 Páginas)  •  10 Visualizações

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Entrevista com psicóloga/paciente oncológico

Eu vou te fazer algumas perguntas sobre a sua atuação com os pacientes oncológicos como psicóloga e outras sobre como está sendo pra você juntar o seu trabalho com a sua vivencia como paciente, tudo bem?

-É um pouco complicado, vamos lá.    

Você já fez o atendimento de algum cliente oncológico? Qual o índice de demanda desse tipo?

- Sim. Eu era responsável pelo hospital Badim na ala de câncer, então já trabalhei com muitos pacientes com demanda oncológica. O índice de demanda desse tipo é enorme, principalmente depois de doente como paciente eu tenho visto que o número de pessoas com câncer é enorme e não só o paciente que requer cuidado mas os parentes muitas vezes não são vistos e também são uma demanda muito grande que não tem esse apoio.

Qual a queixa principal desses clientes?

-A queixa principal que eles costumam trazer são várias. A primeira é a aceitação da doença, porque o câncer ainda é uma doença que as pessoas enxergam como um ponto final, como uma noticia de que vou morrer, como uma sentença de morte; outra é como vai ficar a situação financeira e como vai ficar os parentes. Então são varias perguntas que passam na nossa cabeça, durante o tratamento também tem a questão da queda do cabelo, quando o paciente é mulher.

Você está tratando o câncer no modo geral? ( Afirmei que sim) Então, tem a questão da queda do cabelo, a questão dos efeitos físicos e emocionais, que são ondas de emoções e que uma parte dos pacientes fazem até uso de remédios psiquiátricos para controlar essa onda que é bem complicada, uma hora você está bem outra muito mal, parecemos quase um bipolar (risos).

A princípio qual é a orientação feita por você ao recebe-los?

-A princípio eu só acolho e escuto, porque no primeiro momento o paciente só quer desabafar até ele passar por todas as fases do luto, porque o câncer é um luto. É uma doença tão séria que traz um luto pra você. É um peso pois você carrega muita coisa, é um deixar de fazer muita coisa e também tem a questão de lhe dar até mesmo com a perda do marido. Eu tenho ouvido muitos relatos de mulheres que perdem seus maridos quando recebem a notícia ou durante o tratamento, pois tem parceiros que não querem ficar com mulheres que fizeram mastectomia, não querem ficar com uma mulher careca e ela já está lidando com a doença e ainda tem que enfrentar uma separação. São muitos fatores que se passam, então a princípio é o acolhimento e aí depois começo a parte da elaboração da doença, vejo em que fase essa pessoa está, se ela já aceitou ou se está na fase de negação, então mediante do que ouço naquele momento é que eu começo a direcionar o tratamento. Também faço orientação para as pessoas procurarem nutricionistas, porque mexe com a alimentação; um exercício físico, eu vejo se as primeiras etapas estão sendo concluídas; se ela faz o tratamento direitinho; o que ela está fazendo pra se cuidar; eu procuro perceber se esse paciente vai continuar trabalhando ou não, se ele não trabalhar vamos ver o que ele vai fazer nesse período, porque nós não podemos ficar atoa senão é suscetível a uma piora emocional e depois de tudo isso temos que mostrar ao paciente que ele ainda tem vida, que ele deve lutar independente do diagnóstico que o médico deu a ele. É mostrar que a ciência está muito avançada e também que morrer todos vão e que pode não ser pela doença, que pode ser ao atravessar a rua ou ao sair de casa nesse Rio de janeiro violento, mostrar que viver é uma incógnita.

O fato do médico dar um prazo de três, quatro, seis meses ou dois anos é bem complicado, assim é importante checar a fé desse paciente, a fé é um dos princípios fundamentais pra quem tem câncer porque a fé é uma esperança em algo superior pode acontecer, se a pessoa não tem fé nenhuma a chance de ficar deprimido e se entregar a doença é muito grande.        

Quanto te afeta o atendimento a um cliente com diagnóstico de terminalidade?

-Hoje te responder isso está muito misturado dentro de mim, eu não seria parcial. Mas se fosse ao passado, a quatro meses atrás eu te diria que é a direção de qualquer vida, começo, meio e fim e que isso não me afeta porque era a demanda do paciente. A quatro meses atrás por mais que eu tivesse empatia, que eu entendia tudo ele estava passando naquele momento aquilo não me afetava hoje está totalmente diferente. Hoje isso me afeta um pouco mais, hoje eu sou psicóloga paciente e sempre intercalo entre as duas posições, hoje se o diagnóstico de um paciente com câncer é dois meses eu trabalho em cima daquilo que ele tem, se ele me diz que tem dois meses mas que Deus pode curar ele eu trabalho naquilo, baseado naquilo que ele me traz e eu utilizo até a vida se findar, trabalhando o hoje a demanda dele não me afeta. Ele está vivo hoje? Vamos ver como ele está vivo, se é com esperança ou se ele está mal, se ele está mal temos que trazer de volta a expectativa de vida, embora seja bem difícil.

Como é para você acompanhar o cliente oncológico? Como você lida com essa situação?

-Acompanhar um paciente com câncer é ter que ser bem sensível justamente porque o câncer tem esse rótulo de sentença de morte, eu a quatro meses atrás achava que entendia sobre o câncer, porque eu lia e estudava muito, também por está em um hospital e acompanhar muitas mortes diariamente. A angustia que esse paciente me traz pra mim é o importante se ele me parece bem sensibilizado eu tenho que trazer o sentido de vida dele novamente e trazer o sentido a vida é muito difícil para qualquer pessoa, principalmente fazer essa descoberta diante um assunto como esse, mas ao mesmo tempo é um humano como qualquer outro, com suas angustias e limitações então tenho fazer o que qualquer psicólogo faria, aí não tem muito diferença por ser um paciente oncológico.  

Como você faz o acompanhamento com a família?

-Eu faço o acompanhamento com a família também pois acho muuuito importante. Mesmo que o familiar seja daquele que diz “só estou trazendo ele”, porque um paciente oncológico dificilmente anda sozinho, mesmo que ele esteja lá na recepção eu faço questão de ter pelo menos cinco minutinhos com ele, para procurar saber como ele está, se está precisando de algo. Nós temos o acompanhamento só com os familiares e vemos como há uma carência muito grande, é uma tristeza enorme pois eles estavam vivendo suas vidas e em um momento veio o câncer e muitas vezes eles tem mudar toda sua rotina, deixando de trabalhar ou imaginado que aquela pessoa que ele ama pode morrer, então é preciso ter um olhar para esse familiar não tem como atender só o paciente oncológico e nem ao menos conhecer quem está ali na recepção, se o paciente vai sozinho eu perguntou “quem te acompanha nesse processo? Ah, pede pra ele vir na próxima consulta”, não só pra ele se sentir acolhido é também pro seu paciente oncológico se sentir mais forte, porque muitas vezes quem o acompanha não entende o que ele está passando e ele precisa desse apoio. A consulta com o médico é muito rápida e o médico não dá esse apoio que o acompanhante precisa, então nada mais justo que chamar esse cuidador e perguntar se ele precisa de algo, o que ele entende dessa doença, como ele está lidando com esse processo pra ele se sentir acolhido, pois talvez com esse acolhimento ele entenda que também precisa de um tratamento psicológico pois não está conseguindo lhe dar com o processo sozinho. Quando isso acontece eu já o encaminho para uma colega.

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