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UMA CARACTERIZAÇÃO DA PSICOTERAPIA

Por:   •  3/5/2016  •  Artigo  •  3.748 Palavras (15 Páginas)  •  135 Visualizações

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UMA CARACTERIZAÇÃO DA PSICOTERAPIA

o tema desta palestra é a psicoterapia. Ocorreu-me
abordar primeiro o que a terapia não é, antes de pensar
no que ela é. Parti de dois mal-entendidos que conside-
ro sérios.

O primeiro deles, extremamente freqüente, consis-
te em considerar a terapia como o lugar para onde de-
vem se dirigir as pessoas culp
adas de alguma coisa ou
que estão erradas de alguma forma. V
ejamos um exem-
plo
: alguém anda há tempo com dificuldade para dormir,
tenso, brigando com a mulher, porque com a substitui-
ção de seu chefe surgiram dificuldades d
e relacionamento
no trabalho. Quando lhe per
guntam se ele não gostaria
de fazer uma terapia, ele responde indignado: "Eu, fazer
terapia? Quem tem que fazer terapia é meu chefe, que é
um louco
, que não entende nada, que chegou onde está
por motivos políticos ... ".

Esse é um ponto de vista não só de leigos, mas também
de muitos psicólogos.
É comum ouvirmos de terapeutas de



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crianças, frustrados com as dificuldades que a família
cria no tratamento, o seguinte: "Imagina, a criança está
ótima, quem precisa de terapia são os pais!"
. Nesse co-
mentário, podemos ouvir: fIOS pais devem fazer terapia
porque eles é que estão errados". Do mesmo modo, no
trabalho com populações carentes, aparecem os comen-
tários
: "Essas pessoas estão ótimas, quem precisa de te-
rapia é a nossa sociedade". Aí também podemos ouvir:

"Quem está errada é a sociedade, é ela que precisa de
terapia".

A terapia, entretanto, não é um recurso de repressão
s
ocial destinado a corrigir as pessoas que estão erradas,
que s
e jUlgam erradas ou que são julgadas erradas por
qualquer tipo de grupo
.

O que temos a dizer diante desse mal-entendido é
qu
e a terapia é um recurso para quem está, com grande
dificuldade, arcando com o peso de uma situação; al-
guém que, de alguma maneira, está "pagando o pato",
não importa se a situação foi motivada por ele mesmo ou
por outros.

O segundo equívoco é a consideração da terapia
como o lugar no qual são aprendidos os valores, as nor-
mas e mesmo as dicas que uma pessoa deveria seguir na
eventual solução de uma s
ituação difícil. Acredito que esse
mal-entendido também é mantido, até certo ponto, por
nós, psicólogos, porque uma tal idéia coloca o terapeuta


como aquele que possui o saber, que tem as informações
para a resolução de problemas.

Esse é um engano ainda mais lamentável do que o
primeiro, pois talvez o elemento mais fundamental do
trabalho de um terapeuta consista justamente no contrá-
rio: no fato de que "ele não sabe". Em geral, quando afi
r-
mo que o terapeuta precisa ter isso sempre presente,
pessoas que estudam muito me olham perplexas e di-
zem: "Bom, se é para não sabe
r, por que fazer tantos tra-
balhos, ler tantos textos ... ?". Não é que não exis
ta um
conhecimento psicológico; ele existe e sua aquisição é
importante, não tanto para que se trabalhe com ele
, mas
porque o próprio processo de aquisição desse conhecim
en-
to pode ser a ocasião de alguém se esforçar pa
ra aprender
a aprender, e isso é uma chave fundamental para o tra-
balho terapêutico.

Ora, afirmar que "não saber" é uma condição fun-
damental do terapeuta é deixar algo estranho no ar. Dian-
te disso, então, perguntamos
: terapia é ... o quê?

Lembro-me do primeiro encontro que tive com
Medard Boss, o psiquiatra suíço que desen
volveu a clí-
nica fundamentada na Daseinsanalyse
. Naquela oportu-
nidade, ele fez uma observação que me deixou intrigado:

"No consultório, Freud era completamente diferente ... ".
Descobr
i então que estava conversando não com um


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