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A Intolerância da Tolerância

Por:   •  4/3/2026  •  Resenha  •  2.061 Palavras (9 Páginas)  •  3 Visualizações

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RESENHA

Rodrigo Pires de Moraes

CARSON, D.A. A intolerância da tolerância. Tradução de Érica Campos. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. 176p. Título original: The intolerance of tolerance.

O livro “A intolerância da tolerância” é de autoria de Donald Arthur Carson. A primeira edição em português foi lançada em 2013 pela Cultura Cristã (São Paulo).

Carson é um dos fundadores e diretores do ministério The Gospel Coalition, é professor pesquisador do Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, onde leciona desde 1978. Obteve o grau de Bacharel em Química, pela Universidade McGill, o Mestrado em Divindade pelo Central Baptist Seminary, em Toronto e o Ph.D em Novo Testamento pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Ele já escreveu e editou mais de 50 livros.

D. A. Carson é um pensador cristão extremante crítico, com profundo conhecimento bíblico e uma visão acerca dos pensamentos contemporâneos apurada. Neste livro tenta nos mostrar o que é a nova tolerância e quão opressora é, mesmo que disfarçada com um ar de liberdade.

Logo no Prefácio, Carson explica que nos últimos dez anos de sua vida, tem palestrado em muitas universidades, e em três ocasiões distintas, ele anunciou sua palestra com o tema deste livro A intolerância da tolerância, e nessas três ocasiões, o público compareceu além do esperado, o que chamou sua atenção, e o levou a estudar mais sobre o assunto. Esse foi um dos motivos pelo qual ele resolveu escrever este livro, além do fato de que, enquanto escrevia um outro livro (Christ and Culture Revisited) que tangenciou o assunto, se deparou com outras questões, principalmente acerca da tolerância e intolerância.

No capítulo 1, Carson começa dizendo que a tolerância “se tornou parte da estrutura de plausibilidade ocidental”, se referindo “às estruturas de pensamento aceitas por uma cultura específica de forma geral e quase inquestionável” (p. 11). Em culturas mais fechadas, (por exemplo, a japonesa), as estruturas de plausibilidade podem ser extremamente complexas, mas quase nunca são questionadas. Em contrapartida, no mundo ocidental, devido a diversidade da cultura, essas estruturas geralmente são mais restritas, pelo fato de haver menos posições sustentadas em comum. Mas mesmo assim, ele sugere que a “tolerância, na maior parte do mundo ocidental, faz parte dessa estrutura de plausibilidade restrita, mas tão tenazmente sustentada” e que questioná-la, além de “quixotesco”, é “culturalmente insensível, de mau gosto e grosseiro” (p. 12).

Prosseguindo, o autor apresenta várias definições do verbo “tolerar”, mas o que chama atenção é uma mudança sutil entre o significado do verbo “tolerar” para o substantivo “tolerância”. Segundo o dicionário para computador “Encarta”, “tolerar” é “ACEITAR A EXISTÊNCIA DE PERSPCTIVAS DIFERENTES para reconhecer o direito das outras pessoas de ter crenças ou práticas diferentes sem tentar reprimi-las”, e “tolerância” é “ACEITAÇÃO DE PERSPECTIVAS DIFERENTES – a aceitação das perspectivas diferentes dos outros, por exemplo, em questões religiosas ou política, e imparcialidade em relação as pessoas que sustentam essas perspectivas” (p. 13). Carson explica que essa mudança do reconhecimento do direito das outras pessoas de ter crenças ou práticas diferentes para a aceitação das perspectivas diferentes dos outros é sutil em forma, mas enorme em substância.

A nova tolerância sugere que aceitar a posição do outro implica crer que ela é verdadeira, ou pelo menos, tão verdadeira quanto a sua própria. Agora ao invés de permitirmos opiniões distintas, temos que aceitar todas como igualmente verdadeiras, e com isso passamos da antiga para a nova tolerância. “Em outras palavras, a antiga perspectiva da tolerância sustentava ou que a verdade é objetiva e pode ser conhecida, e que a melhor forma de revela-la é a tolerância daqueles que discordam, já que mais cedo ou mais tarde a verdade vencerá, ou que, embora a verdade possa ser conhecida em algumas esferas, provavelmente não pode ser conhecida em outras, e que o curso mais sábio e menos malevolente em tais casos é a tolerância benevolente fundamentada no conhecimento superior que reconhece nossas limitações. Em contraste, a nova tolerância defende que não há uma perspectiva exclusivamente verdadeira” (p. 20-21), segundo essa nova tolerância, todos os caminhos são igualmente corretos.

Carson, visando definir com mais clareza o que é essa nova tolerância, cita uma frase de Thomas A. Helmbock, “A definição da nova tolerância é que todas as crenças, todos os valores, todos os estilos de vida e todas as percepções de afirmações sobre a verdade dos indivíduos são iguais [...] não há hierarquia da verdade. Suas crenças e minhas crenças são iguais e qualquer verdade é relativa” (p. 22).

No capítulo 2, Carson se propõe a relatar algumas evidências de que “essa tolerância intolerante está sutilmente direcionada ao cristianismo” (p. 29, grifo do autor), e o faz, apresentando exemplos de ocorrências diversas ao longo dos últimos dez anos, em que a intolerância é notória em todas elas, mas, sempre com o argumento de defender a “tolerância”. “Em outras palavras, neste mundo “tolerante”, certas coisas são intoleráveis” (p. 37).

Já no capítulo 3, a ênfase está em apresentar como a antiga tolerância foi se transformando na nova, observar os movimentos e autores que influenciaram este debate ao longo dos séculos, até chegar a alguns pensamentos contemporâneos. Carson, logo no começo diz que “nenhuma cultura pode ser tolerante ou intolerante com tudo: é simplesmente impossível [...], uma cultura que tolera quase todos os tipos de relacionamentos sexuais poderá, no entanto, rejeitar, por exemplo, o estupro ou a pedofilia” (p. 53).

O cristianismo histórico passou por várias etapas, desde não ser tolerado, oprimido, perseguido (nos primeiros séculos), até o momento em que a Igreja e o Estado estavam intimamente ligados (próximo da Reforma), e então a própria Igreja em conluio com Estado passou a ser intolerante e opressiva.

Carson continua esse longo capítulo com um pensamento de J. Daryl Charles, que traz a ideia de que “a cultura da ‘tolerância’ na qual hoje nos encontramos é uma cultura em que as pessoas não acreditam em nada, não tem um conceito claro do certo e do errado e são notadamente indiferentes a essa situação precária. Como resultado dessa transmutação, a ‘tolerância’ torna-se indistinguível de um relativismo intolerante” (p. 79), e o resultado é que essa nova tolerância tenta suprimir e subjugar as afirmações distintivas das outras culturas (p. 81).

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