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Reflexões Sobre a Noção do Pathos Pré e Pós DSM: Um Estudo de Caso

Por:   •  19/3/2020  •  Trabalho acadêmico  •  2.971 Palavras (12 Páginas)  •  3 Visualizações

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE PSICOLOGIA

Reflexões Sobre a Noção do Pathos Pré e Pós DSM: Um Estudo de Caso

Estudo de caso entregue a Professora Dra. Aline Mendes

 pelos discentes Alison Alves e Rômulo Félix.

Belo Horizonte, 04 de Março de 2020


A vida saudável paira sobre nós como ideal supremo. Queremos ser felizes e para isso é preciso ter saúde. Mas o que é saúde? Saúde, por milênios foi entendida como equilíbrio e harmonia. O seu contrário, desequilíbrio, seria a doença.

Com a segunda guerra mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS), ampliou o conceito de saúde para um estado de completo bem estar físico, mental e social e não somente a ausência de uma doença ou enfermidade. Esta mudança conceitual implicou em outras mudanças na prática da medicina. Se a saúde é um estado de completo bem estar, em tese qualquer mal-estar pode ser tratado pela medicina.

Quando falamos de saúde mental por exemplo, hoje temos um dicionário médico que explica e classifica como transtorno grande parte do mal estar que experimentamos em nossos dias. Nossos comportamentos e sentimentos estão ali de alguma forma catalogados. Para a medicina de hoje, parece que há um remédio para tudo.

Controlar pela química nossas emoções tem sido uma prática cada vez mais comum. Nossa cultura demanda soluções imediatas e parece que espera da ciência a última palavra sobre nossos males emocionais. Tudo isso resulta na medicalização. Progredimos ou estamos transformando em patologias os problemas naturais do dia-a-dia? Pelo enorme consumo de remédios psiquiátricos, parece que estamos caminhando para uma epidemia de transtornos mentais.

Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova versão da “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsecamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual, a farmacêutica. (BRUM, Eliane. Acordei doente mental. 2013).

A noção de que de perto ninguém é normal parece que virou norma. Nomes como TDAH, TOC e BIPOLARIDADE circulam no nosso vocabulário cotidiano. Será que devemos encarar como doença qualquer mal-estar? Na difícil situação de tratar as muitas formas de mal estar, o campo da medicina parece ter encontrado uma saída com a classificação de doenças, mas seus diagnósticos tem gerado muitas polemicas.

Assim como todo processo social e cultural, a medicalização tem não necessariamente apenas aspectos negativos. Há situações de medicalização que aprovaríamos e outros que frequentemente questionamos.  É importante lembrar também que a medicalização não é um evento recente, o evento recente é que o campo da saúde mental, o campo da psiquiatria que vem ganhando importância crescente no mundo atual, está cada vez mais sofrendo esse processo de medicalização que já atingiu o mundo através do restante da medicina.

Há duas questões presentes na medicalização: Uma é questão profissional corporativa. Quem tem o poder de construir diagnósticos e aplicar diagnósticos, o outro, é como é pensada a ideia, as referências dos diagnósticos. Os diagnósticos devem ser pensados como doenças físicas / bases biológicas ou como alterações psicológicas de base psicogênica? A medicalização geralmente tende a ser pensada mais como a primeira colocação, mas isso é apenas uma das dimensões da medicalização. A outra, independe desse tipo de discussão. Essa associação tem mais haver com o fato de que historicamente na medicina pensada como um todo a base biológica e biomédica é a dominante, tanto no presente como foi ao longo da história, mas que não tem essa exclusividade.

O diagnóstico é uma das principais ferramentas utilizadas pela medicina para tratar seus pacientes. O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é um exemplo. A discussão se divide entre aqueles que acreditam que o diagnóstico é válido e aqueles que apontam os erros cometidos por essa categorização. A um aumento crescente de crianças diagnosticadas com TDAH e sendo medicalizadas, mas será que todas deveriam ser assim enquadradas?

A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E tem motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”. (BRUM, Eliane. Acordei doente mental. 2013).

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